14 março 2009

Maria;

Maria era uma menina linda, às vezes tímida, mas muito amiga e alegre com a maioria das pessoas. Tinha em especial um amigo, chamado João. Eles tinham uma amizade linda. Todos os dias brincavam alegremente. Eram, de fato, grandes amigos.
Com o passar dos anos, Maria foi sentindo algo diferente por João. Nunca tinha sentido aquilo por ninguém. João parecia o mesmo com ela, o brincalhão, que conversava até altas horas, o amigo que ia com ela todos os dias à escola. Estudavam em salas separadas, mas na mesma escola. Sempre um esperava o outro pra irem juntos para casa.
Maria a cada dia pensava mais em João. Todos os dias que ia à escola com ele, sentia uma vontade imensa de abraçá-lo. Não o fazia, Maria era uma menina tímida para isso. Não teria coragem de agarrar João, mesmo que fosse seu amigo de anos. Sua amizade com João não era muito "corporal"... Eram amigos, sim, mas não ao ponto de ficarem se abraçando ou nada do gênero. Logo, Maria pensou se abraçasse João ''do nada'', João ficaria muito surpreso.
Maria tinha 13 anos, João 14. Ela nunca tinha beijado ninguém na vida. E morria de vontade de perguntar se João já tinha feito isso e com quem tinha sido. Certo dia, Maria se desfez de sua timidez por um momento e resolveu "abrir caminho" para uma futura declaração.
Disse:

- João, eu ando pensando tanto em alguém. Todos os dias que acordo só consigo pensar nele, em vê-lo. Gostaria mesmo era de abraçá-lo quando eu o vejo. Mas não sei... Não tenho coragem. Tenho medo que ele me ache um pouco atirada demais, doida demais... Ai, acho que estou apaixonada.

- Humm... Maria apaixonada, essa é nova. E quem é ele?

Nessa hora Maria sentiu a cabeça girar, as mãos tremeram, ela tentou conter todo o seu nervosismo. E disse:

- Um amigo meu...

- Da escola?

- Errr... Também.

- Ah, Maria, conta pra mim... Fiquei curioso. Você não vai esconder isso de mim, vai?

Maria notou que ela não tinha aberto caminho pra uma declaração, ela notou que tinha começado a se declarar e que seria naquele momento que tudo ia se resolver ou embaralhar de vez. Teve forças. Foi um impulso, uma coisa que Maria talvez um dia poderia se arrepender, mas ela nem teve tempo de pensar nessa possibilidade. E confessou:

- É um amigo meu, de infância, ele veio morar aqui aos 7 anos. O via como meu amigo apenas. Mas não sei se vejo só assim ainda. Penso nele diariamente. Ele me faz sorrir, me faz cantar, me faz correr com ele à caminho da escola. Fica até altas horas da noite na calçada comigo, contando histórias...

Nessa hora foi a vez de João tremer... Não deixou isso ficar claro para Maria. Mas ele sentiu que ela falava dele... E resolveu falar algo que há tempos gostaria de ter falado. João também estava apaixonado por Maria. Não deixava que isso transparecesse de maneira nenhuma. Não queria sofrer com a possibilidade de Maria só tê-lo como amigo e não quisesse nada mais que isso com ele. Depois de alguns segundos de reflexão, disse:

- Maria... Acho que estou começando a entender...

Maria quase cai de costas quando ele disse isso, mas se segurou. Ele prosseguiu:

- Olha - pegou a mão dela com delicadeza, e com determinação - Eu tenho algo a dizer, já que você ''abriu o caminho'', vou confessar algo que há muito tempo mora dentro de mim. Um sentimento que eu nunca tinha sentido por ti floresceu de uma maneira que eu nunca imaginei. Eu acho que eu estou gostando de você. Penso em você. Me alegro ao saber que vou te ver... Vo-você quer ser minha namorada?

Maria nessa hora sentiu que havia algo em seu estômago, borboletas talvez... Não conseguiu falar. Apenas o abraçou, um abraço demorado, depois os dois ficaram olhando um para o outro, e o beijo aconteceu. Era o primeiro beijo dos dois. Momento mágico. Momento que nenhum deles esqueceu.

Namoraram durante toda a adolescência... Nunca tiveram brigas sérias. Nunca se separaram. Era um amor de verdade. Resolveram ficar noivos. Casaram. Tiveram anos perfeitos... Viveram intensos dias de amor. Decidiram não ter filhos ainda. Aproveitaram cada momento juntos. Planejaram uma viagem. Depois da viagem, pensariam em ter filhos. Malas prontas. Animados mais do que nunca. Pegaram a estrada. Felizes, música animada, sorrisos estampados no rosto. A viagem perfeita, se não fosse por...

Um carro desgovernado veio de encontro ao carro de Maria e João. João estava dirigindo, tentou desviar. Não teve como. Os carros se chocaram. João morreu no local. Maria sobreviveu. Maria ficou desolada quando acordou já no hospital e perguntou por João, uma enfermeira com ar pesaroso lhe respondeu:

- Sinto muito...

Naquele momento, Maria sentiu que haviam arrancado seu coração. Sua razão de existir. Amava João, desesperadamente. Não conseguiu se recuperar da perda. Seu amigo de infância, o seu amor... Seu único amor. A única boca que tinha beijado em toda a sua vida agora estava fria. Maria morria um pouco mais a cada amanhecer. Não conseguia se alimentar, dormir ou viver. Só queria ir ao encontro de João.

Numa manhã ensolarada, encontraram Maria na cama, face pálida, pulso silencioso e um leve sorriso no rosto.

(Erica Ferro)

3 comentários:

  1. Que lindo!
    Será que ainda existem amores como esse?
    Espero que sim... é tão bonito!

    =]

    Ah, Erica, te indiquei pra um selo, pega lá no blog...

    Bjoo

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  2. Maria morria um pouco mais a cada amanhecer. Não conseguia se alimentar, dormir ou viver. Só queria ir ao encontro de João.

    ( me vi aí ... )

    Numa manhã ensolarada, encontraram Maria na cama, face pálida, pulso silencioso e um leve sorriso no rosto.

    ( macabro :P gostei ;] )

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  3. Erica, só tive oportunidade pra ler hoje; esse texto chamado "Maria", portanto, gostei muito dessa história;

    Você sempre com suas crônicas que vão além da realidade...

    = Xd!

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