18/03/26

Como salvar uma vida


Eu quis te salvar de você mesmo.
Eu quis que você me ouvisse e me entendesse.
Eu quis que você olhasse pra mim e visse no fundo dos meus olhos o que eu queria pra você.
Eu quis tanto que você quisesse algo.
Tanto.
Querer te salvar acabou com a minha sanidade mental.
Querer te salvar me levou ao limite.
Sempre que eu tentava te ajudar, você me empurrava pra longe.
Você sabia que eu não estava errada, mas, ainda assim, preferia me repelir e continuar se afundando cada vez mais.
Eu não suporto te ver no fundo do poço, mas não consigo mais lutar por você, pois, sem você querer, nada pode ser feito.
Eu demorei pra entender e pra parar de me culpar de que não posso lutar as lutas que não são minhas.
Eu não posso insistir em salvar quem não quer ser salvo.
E sabe o que foi mais duro? Entender que desenvolvi esse instinto de salvadora da pátria pra compensar coisas que eu nem sabia que tentava compensar. Dores que eu achava que estavam resolvidas. Lacunas que eu nem sabia que existiam. Mas existem.
E ainda que eu saiba que não posso te salvar, ainda fico olhando pra o fundo do poço, desejando que você me peça uma corda pra sair daí de dentro.
É uma merda te ver assim. Me causa dor física não conseguir arrancar de você tudo aquilo que te angustia e te adia. 
Tenho vontade de gritar de novo, pela trecentésima vez, de te chacoalhar, de dizer "Acorda, é agora ou nunca, o tempo passa e não volta. Entende? Você entende? Você tem se escondido da vida. Você tem evitado enfrentar os traumas. Você tem se anestesiado, como se assim, magicamente, tudo fosse ficar bem. E não vai. Não vai mesmo!".
Mas sabe de uma coisa?  
Quem sou eu pra querer te salvar? Quem sou eu, cheia de traumas não tão bem resolvidos assim, pra dizer que alguém não encara os traumas? Quem sou eu pra dizer que você tem se escondido da vida, quando eu também me escondo quando as coisas ficam difíceis? 
Sabe de outra coisa? É fácil querer salvar a sua vida e fingir que a minha vida está no trilho certo. É fácil querer salvar você enquanto evito olhar pra mim mesma em vários momentos.
Mas, definitivamente, quer saber o que mais importa agora? É que a gente aprenda a domar nossos demônios e vença o que quer nos vencer todos os dias. Torço pra que você ache uma mola no fundo da merda desse poço e consiga sair dele. Pois eu vou estar aqui, caso você queira a minha companhia pra gente continuar a caminhada dessa tresloucada vida. E eu? Ah, eu vou tentar salvar a mim mesma...  

(Érica Ferro)

15/01/26

Abre a tua vida

Abre a tua casa

Me deixa entrar

Não quero fazer morada 

Só quero te ver, te ouvir, te visitar


Abre teu coração

Me deixa entrar

Não quero te assustar

Só quero te sentir, te abraçar, te acarinhar


Abre a tua mente

Me deixa entrar

Não quero te julgar nem concluir nada 

Só quero te ler, tentar te entender, te apoiar 


Abre teus olhos

Me deixa entrar

Não quero nada além do que você pode me dar

Só quero que você me veja para além da fachada, da capa, da casca


Abre a tua vida

Me deixa entrar

Só quero te acompanhar, andar ao teu lado, segurar forte a tua mão, ser presença leve e tranquila 

Só quero poder te ter mais perto 

Aninhar a cabeça no teu peito e esquecer de todo o resto

Seremos só nós dois no Universo 


(Érica Ferro)

22/12/25

965 dias

Hoje, 22/12/2025, faz exatamente 965 dias não apareço no Sacudindo Palavras.
Então, do mais absoluto nada, despretensiosamente, loguei no blogger e comecei a escrever. 
Escrever sempre foi terapêutico pra mim, mas, infelizmente, perdi esse hábito nos últimos anos. Não serei mentirosa dizendo que foi pela falta tempo, afinal são 965 dias sem postar nenhuma linha sequer. O fato é que eu parei de escrever por desacreditar em mim como escritora amadora. Não escrevo sobre algo que nunca foi escrito. Escrevo sobre obviedades, amenidades, aleatoriedades. Escrevo sobre um amor que inventei. Escrevo sobre qualquer coisa e sobre nada. Apesar de não escrever nada digno de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, escrevo sobre o que faz meu coração pulsar mais forte, sobre o que faz minha mente devanear. E eu preciso, fortemente, parar de me boicotar, de achar que não escrevo coisas inteligíveis e/ou dignas de serem lidas. Eu preciso me permitir a deixar as letras saírem dos meus dedos como anos atrás. Sem medo, sem amarras, sem ser carrasca de mim mesma. 
Se eu quiser poetizar, que eu poetize sem métrica, sem rima rica. 
Se eu quiser publicar um artigo de opinião, que eu publique e que eu confie em mim mesma e na minha capacidade de ter ideias dignas de nota. 
Se eu quiser escrever um conto mal contado, sobre um amor que eu inventei, que eu escreva, que eu publique, que eu torne esse amor real pelo menos em mal traçadas linhas. 
E que, principalmente, eu nunca perca a capacidade de ver poesia em cada canto desse mundo por vezes caótico. 
Transformar as agruras da vida em poesia é uma das coisas que dá sentido à minha existência e faz os meus dias mais leves. 
É oficial: voltei ao Sacudindo Palavras. Mas, diferentemente dos meus outros retornos, não prometerei nada. Apenas deixarei fluir, tal como um rio que corre pra o mar. Falando em mar, preciso ir ver o mar, sentir a brisa acarinhando o meu rosto, ver o pôr-do-sol na praia e sentir, em cada célula do meu corpo, a vida acontecendo em mim. 

(Érica Ferro)