03 fevereiro 2015

Resenha: O fio das missangas - Mia Couto


O fio das missangas
Mia Couto
Companhia das Letras
152 páginas
☺ ☺ ☺ ☺  
Sinopse: "A missanga, todos a veem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo."
"A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas as missangas." É assim que o donjuanesco personagem do conto "O fio e as missangas" define a sua existência. Fazendo jus a essa delicada metáfora, cada uma das 29 histórias aqui agrupadas alia sua carga poética singular à forma abrangente do livro como um todo - vale dizer, ao colar em questão. Com um texto de intensidade ficcional e condensação formal raras na literatura contemporânea, Mia Couto demora-se em lirismos que a sua maestria de ourives da língua consegue extrair de uma escrita simples, calcada em grande parte na fala do homem da sua terra, Moçambique, um pouco à maneira de Guimarães Rosa, ídolo confesso do autor.
A brevidade das pequenas tramas e sua aparente desimportância épica estão focadas na contemplação de situações, de personagens, ou simples estados de espírito plenos de significados implícitos, procedimento típico da poesia. Os neologismos do autor, a que os leitores já se habituaram, para além de mera experimentação formalista revelam-se chaves fundamentais de interpretação da leitura.
Não por acaso, a maioria dos contos de O fio das missangas adentram com fina sensibilidade o universo feminino, dando voz e tessitura a almas condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, uma vez esgotado seu valor de uso, as mulheres são aqui equiparadas ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas. "Agora, estou sentada olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada. E parece que me sento sobre a minha própria vida", diz a narradora de uma dessas belíssimas "missangas" literárias. (fonte)



Quão bom foi conhecer Mia Couto nesse início de 2015! Foi tão gostoso, tão maravilhoso, que me é difícil escrever as impressões acerca de O fio das missangas, um livro de poucas páginas, mas repleto de poesia e intenso em sentimentos vários. Esses 29 contos despertaram em mim emoções mistas: encanto, tristeza, dor, revolta, compaixão, nostalgia e amor. Por essa razão, é custoso ordenar as sensações e as ideias para compor esse texto. Ainda assim, tentarei.
Não conseguiria tecer comentários sobre cada conto, mesmo porque o post ficaria imenso. Prefiro elencar aqui alguns contos que me arrebataram de uma forma singular e que as suas palavras me tocaram de um jeito que há muito não me sentia tocada. É estranho eu ter tanta convicção em dizer que Mia Couto é genial, porque um livro dele durante toda a minha vida. Contudo, eu já tinha escutado falar sobre ele, e foram comentários elogiosos e empolgados. Então, dei uma chance a esse livro sem muita expectativas, não me deixando empolgar muito pelas críticas positivas que havia visto, pois queria tirar as minhas próprias conclusões e, de fato, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito nesse começo de 2015 em relação a literatura. 
Os neologismos, o lirismo, a poesia e a intensidade dos sentimentos mais profundos estão presentes em cada palavra de cada dos 29 contos. Em Meia culpa, meia própria culpa, por exemplo, Maria Metade conta a sua história (digito até com 'h', porque é um relato tão palpável, é tão fácil de se encontrar uma Maria Metade bem próximo a nós), história de metades, de privações e de sonhos não realizados. Maria nunca se sentiu inteira, sempre ficou "entre o meio e a metade". Nunca além disso. Uma mulher de infância difícil, que ouvia frequentemente que deveria sonhar com cuidado, porque "pobre não sonha tudo, nem sonha depressa". Sem amor, sem filhos, sem plenitude, nem no seu mais ousado ato de coragem (ou outro adjetivo, dependendo do ponto de vista), que eu não direi aqui para não revelar ainda mais detalhes do conto do que já revelei até agora, conta com tristeza, melancolia e um ar de frustrada sonhadora sobre o seu passado, presente e os seus sonhos que foram condenados a existirem apenas no seu pensamento, visto que nunca tiveram a oportunidade de pular para realidade; revela também as alegrias que nunca teve, dos desgostos sempre presentes e deveras latente. A história de Maria me doeu de uma forma tão grande. Conheci algumas Marias que eu diria ser semelhantes a Maria de Mia Couto. E, baixinho, me entristeci por elas. Ao mesmo tempo que me entristeci, me revoltei. Por que algumas pessoas são privadas até mesmo de se sentirem vivas, de se sentirem plenas? O sistema é cruel e esmagador, marginalizando cada vez mais quem já vive à margem da sociedade, sem dar oportunidade a quem só deseja um lugar mais calmo, florido e bonito para sentir o que é viver de verdade.
Os olhos do morto foi outro conto que dialogou comigo: causou tristeza, pena e uma profunda revolta. Quis colocar a mulher, tão sofrida, nos braços, e chacoalhar o homem que nunca a amou, que só a ignorava e a oprimiu. Que destino cruel e horrível o de tantas mulheres, a de serem reprimidas todos os dias, de terem seus direitos e liberdades tolhidos! Revoltem-se, mulheres! Não se calem! Não deixem que silenciem as suas vozes, não permitam que lhe digam o que fazer ou como viver! Nenhum ser humano é superior a ninguém. Todos somos iguais em direito e assim devemos ser tratados. Ninguém nasceu para ser objeto de outro alguém. Somos livres para ser quem somos. Somos livres para amar e sermos amados com ternura e respeito. Ou, ao menos, deveríamos ser. Lutemos por isso, pois.
Entrada no Céu... Ai que dó me dá de amores incorrespondidos! Não bastou ser incorrespondido, o nosso personagem e narrador foi vítima de um amor que o fez sangrar e penar. Ah, Margarida! Um gesto teu, apenas um, teria evitado tanto sangue, tanta dor e desolação! 
Os machos lacrimosos me chamou a atenção porque me lembrou do livro Clube da Luta, de Chuck Palahniuk. No conto de Mia, homens se encontravam no bar de Matakuane para conversar, fazer piada e rir um bocado, até o dia em que um deles, Luizinho Kapa-Kapa, se pôs a chorar ao contar um causo triste, tão triste que ele todo transmutou-se em lágrimas tamanhas, que num dado momento não se ouvia mais as palavras proferidas da boca de Kapa-Kapa, apenas o choro descontrolado. Depois disso, se encontravam não mais para "fabricar risadas", mas sim para "partilhar lamentos, soluços e lágrimas". E descobriram o benefício do choro, deram a chance dos sentimentos emergirem e transbordar pelos olhos, porque homem pode e deve chorar para externar suas dores e suas mazelas. Não é fraqueza nenhuma falar do que rasga a alma. Pelo contrário, é coragem e vontade de aliviar o nó na garganta e o aperto no peito. Em Clube da Luta, o narrador-personagem, singular, de mente transtornada e alma bagunçada, comparecia a vários grupos de apoio, destaco um que se chamava Homens Unidos, que me fez lembrar do conto de Mia. Nesse grupo, homens, repletos de tristezas, dores, dissabores e desolações se juntavam, aos pares, para chorar abraçados uns aos outros. Chorar tudo o que fosse pra chorar, tudo o que houvesse entalado no peito ou na garganta. E era um alívio para todos eles. Uma coisa essencial na vida é a seguinte: verdade. Verdade para sorrir quando for para sorrir, chorar quando for para chorar, sonhar quando for para sorrir. Porque o sofrer e chorar são elementos que, num primeiro momento abala e enfraquece, mas depois estrutura e fortalece.
Uma questão de honra fala da solidão compartilhada por Siwale e Esmerado Fabião, cada qual com suas dores e a sua coleção de sonhos engavetados e felicidades não-acontecidas. Com uma delicadeza e destreza, Mia Couto traça mais um conto que nos emociona, conto que retrata esses dois amigos, que eram o mundo um para o outro e nos mostra como os jogos de tabuleiro para esses dois eram a maneira que acharam de espantar a solidão em que viviam. A história desses dois velhinhos é capaz de arrancar suspiros lamentosos, de apertar o peito e de fazer a gente chorar um pouquinho num canto, em silêncio. A vida é rara, mas a "palavra, a honra e a amizade" fazem-na irresistível de ser vivida.
Mia Couto me ganhou, sem esforço, é bom frisar. Em O fio das missangas, Mia passeou pelos vales mais sombrios das almas e desenhou os sentimentos humanos mais conflitantes com uma verdade tão forte, que o leitor sente no arrepiar da pele e na pulsação ora fraca, ora forte do coração ao navegar por mares de sensações e ideias que raramente ousamos pensar, porque ser mares caudalosos, tão cheios de amor quanto de dor, porém que sabemos, no íntimo, que por eles é preciso, é realmente preciso. Na outra margem, não seremos mais os mesmos que éramos no começo e durante a travessia.
Se você, caro(a) leitor(a), aprecia uma leitura intimista, profunda e poética, fica aqui a dica. Leia Mia Couto, porque ele é realmente um escritor fabuloso!
Já sinto vontade de ler mais e mais títulos desse grande escritor moçambicano!

Erica Ferro

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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

5 comentários:

  1. Que coincidência, tive meu primeiro contato com Mia Couto agora no início do ano (indicação da Tay) e li justamente esse livro! É um livro que explora várias emoções, mas o que mais me impressionou foi a presença marcante de mulheres fortes e sofridas. Acho que você conseguiu mostrar bem a intensidade do livro que temos aqui. Também pretendo escrever sobre ele em breve.

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  2. Confesso que eu desconhecia esse livro e a autora
    Mas depois de uma resenha tão dedicada, me vi curiosa em conhecer esse trabalho

    Beijos
    http://pocketlibro.blogspot.com.br

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  3. Oi Érica, eu não conhecia o livro - nem a autora, para ser sincera. Também não sou muito fã de ler contos, salvo naqueles casos em que realmente acho que eles me conquistariam, o que parece acontecer com esta obra. Eu adorei suas impressões sobre os textos, fiquei curiosa e, se tivesse oportunidade, sem dúvida alguma leria. É engraçado como alguns autores conseguem em poucas páginas transmitir tanto ;)

    Beijos

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  4. Não conhecia a autora, mas estou numa onda de tentar ler mais contos e poesias, andava muito focada em histórias maiores e sagas e acabava deixando de lado esses gêneros tão gostosos de se ler.
    Gostei muito da temática, livros sobre o universo feminino encantam qualquer mulher, né?
    Ótima resenha!
    Bjuxxxxxx

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  5. Esse ESCRITOR coloca a alma pra fora quando escrever, é de uma sensibilidade sem tamanho.
    Li um livro dele, que não me lembro o nome agora, e adorei.

    Beijo

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