23 janeiro 2015

Documentário: Criança, a alma do negócio

Título: Criança, a alma do negócio
Ano produção: 2008
Direção: Estela Renner
Estreia: 1 de Janeiro de 2008 (Brasil)  
Duração: 49 minutos
Gênero: Documentário
Países de origem: Brasil
Sinopse: Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?
Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumes. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.


A publicidade infantil é cruel, inicio o texto dessa forma porque é com essa reação que você termina de ver o documentário Criança, a alma do negócio. É cruel e aproveitadora. Segundo o IBGE, a criança brasileira é a que mais assiste TV no mundo. Ela passa em torno de cinco horas vidrada na televisão. Em resposta, as crianças confirmam que gostam mais de assistir TV do que brincar. O que é um problema, porque, como bem disse um jornalista num ponto do documentário, “a TV amolece o músculo da imaginação”, ao passo que expõe algo já mastigado, algo já pronto, em vez de dar a oportunidade para que a imaginação e o senso crítico sejam exercitados. O principal canal das propagandas é a TV e, dessa forma, crianças de todas as classes sociais têm acesso e são afetadas por esse tipo de abordagem. Preocupante, obviamente, pois algumas delas começam a sonhar e almejar algo que, além de não ser útil e proveitoso, está fora do orçamento de seus pais, o que as deixam frustradas e tristes.
Quão assustador é ver meninas de quatro, cinco anos querendo se maquiar de maneira similar a moça da novela ou a menina do comercial? Caramba, é uma menininha de quatro anos, quase um bebê querendo usar maquiagem! E quando meninas de sete, oito anos querem usar salto alto para se sentirem mais altas do que são? E por que querem se sentir mais altas do que são? Porque a mídia diz que as meninas/mulheres poderosas são altas ou, se não são, usam salto alto. Provavelmente isso.
A publicidade voltada para crianças é bem apelativa, não diferentes das outras, infelizmente. No entanto, estamos falando de publicidade para crianças. Se uma criança vê na TV que se ela usar um sapato de tal jeito, vai ser mais descolada, mais legal e até mais feliz, com certeza pedirá aos seus pais que lhe compre o danado do sapato. Pedirá, ainda mais, se uma outra criança amiga dela tiver o tal sapato, porque significará que a outra criança é mais descolada e poderosa do que ela. Foi a TV que mostrou, ela bem se lembrará. Ela não vai querer ficar fora da moda, vai? Óbvio que não. E desata a desejar consumir mais e mais.
No documentário, o advogado, jornalista e professor universitário Clóvis de Barros Filho relembra que, tempos atrás, o que fazia uma criança se enturmar em algum grupo era a sua capacidade de jogar bem algum tipo de jogo, seja bola, queimado, etc; mas, agora, na realidade em que vivemos, o que faz uma criança ser inserida num grupo mais facilmente é ela ter determinado brinquedo, vestir e calçar determinada marca. Ou seja, o lance agora é ostentar.
Um dado preocupante é o grande número, que continua a crescer, de crianças que cada vez mais perdem a infância em decorrência da descoberta das novas tecnologias e do consumo desenfreado motivado pela publicidade infantil.
Muitas meninas, por exemplo, vão à escola – ou a qualquer lugar – usando maquiagem, salto alto, entre outros adereços que, normalmente, só se usa na idade adulta. Por qual motivo? Porque viu num comercial de marca X um salto alto bonito, igual ao da atriz X, que, por usar tal salto, é poderosa e incrível, diz a propaganda. A menina quer ser igual, quer ser poderosa igual a tal moça da moda. A publicidade usa de apelação e mais apelação.
No documentário, uma pedagoga fala justamente da proibição frequente do uso de saltos que tem de ser feita na escola em que ela trabalha porque as meninas não conseguem correr de salto; e, se conseguem e chegarem a cair, correm o risco de se machucarem além da conta por causa do salto. Uma menininha conta toda orgulhosa os seus trinta e três pares de sapatos. Antes, ela frisa que adora um deles porque a faz parecer mais alta.
A verdade é que na maioria das vezes os pais fazem mais do que podem pelos filhos, estouram seus orçamentos e satisfazem as vontades de seus pupilos, lhes comprando algo caríssimo, com os quais os pequenos brincam por menos de uma semana e depois deixam na reserva, abandonado. E óbvio que vão pedir outro brinquedo ou outra coisa pra suprir... O quê? O desejo consumista?
Uma mãe fala algo bastante interessante sobre o comportamento dos pais em relação aos efeitos da publicidade infantil, algo como “Para suprir a nossa ausência na vida deles, já que muitos de nós vive em função do trabalho, de dar uma vida legal pra eles, e também para nos vermos livres dos muitos pedidos lamuriosos dos filhos, passamos a dar tudo o que as crianças desejam.”, ideia que uma psicanalista rebateu dizendo que não é bem assim que os pais devem agir. Ela ressalta que o desenvolvimento de uma criança se dá justamente quando ela tende lidar com a frustração, com a palavra ‘não’, com o ‘não pode’ e o ‘não dá’.
É chocante visualizar crianças que sabem o nome de várias marcas e produtos, mas não sabem o nome de frutas e legumes porque só consomem coisas industrializadas, pré-fabricadas. É chocante e triste.
De quem é a culpa? Dos pais? Dos publicitários que ferem a ética apelando desse jeito para com crianças que não têm senso crítico pra discernir se aquilo que lhe é mostrado é algo útil e se ela realmente necessita daquilo? Dos governantes que, na maioria das vezes, deixam passar batido esse tipo de coisa que fazem os publicitários, porque, de uma maneira ou outra, isso gera bastante dinheiro? Dos homens da lei que não proíbem esse tipo de propaganda escancarada e reconhecidamente prejudicial às crianças? Porque redigir leis é fácil. Quero ver é fazê-las serem cumpridas. Aí, sim, eu quero ver! A quem interessa de que leis que ferem a ética e ludibriem crianças não sejam cumpridas? Pensemos um pouco. Respondam para si mesmos. 
Podemos deixar isso assim? Claro que não. Eu, você e todo mundo precisa incomodar. Precisamos desconstruir esse monstro do consumismo doentio e desenfreado que cresceu nos últimos tempos. É difícil, é, ainda mas por ser algo que é alimentado todos os dias por diversos meios, especialmente os televisivos. Difícil, mas não impossível. Não se muda o mundo num segundo. É tudo um processo lento e árduo, É que, realmente, não vejo perspectiva num mundo no qual crianças têm a sua infância encurtadas ou perdidas. Eu não vejo perspectiva num mundo no qual uma menina, por volta dos seus doze anos, diz que necessita sempre carregar uma base e um batom na bolsa, além da importância que ela vê em assistir desfiles de moda, para ver como se portar e se vestir, porque, segundo ela, é muito importante estar bonita e bem vestida. Nota-se uma hipersexualização das crianças, quando o esperado era que todas essas crianças agissem como tal, correndo e brincando por aí. Mas não: elas estão se preocupando com a roupa que vão vestir, com o sapato que vão usar, com o brinquedo que precisam comprar para ficar dentro da moda, a fim de não ser rechaçadas.
A culpa não é só da publicidade. A culpa não é só dos pais. A culpa não é só do governo. E, de forma alguma, a culpa é da criança. A criança, aqui, é a real vítima. Os pais devem fazer o seu papel, o governo idem e o pessoal da publicidade precisa se questionar até que ponto é válido chegar para vender os seus produtos e alcançar os seus intentos. Ferir a ética e desrespeitar as crianças, na minha visão, extrapola o ponto que eu considero saudável e digno.
O documentário, como diz na sinopse, é cru e escancara a realidade sem meias palavras ou reservas. Essencial para impactar e causar reflexões acerca dos maléficos causados pelas publicidades abusivas. Indicado especialmente para educadores e pais, para que tomem conhecimento do problema e saibam trabalhar o assunto de uma maneira mais didática e acessível aos pequenos. Criança, a alma do negócio também é uma produção de Maria Farinha Filmes, a mesma que produziu o documentário Muito além do peso, que também já vi e escrevi sobre ele aqui no blog.

O documentário completo pode ser visto pelo próprio canal Maria Farinha Filmes. Ei-lo:



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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

3 comentários:

  1. Bom, se eu não estivesse com preguiça eu dissertaria um texto aqui sobre o que acho disso, mas o problema é que a preguiça ta muita. rs
    Mas sou super contra esse apelo da publicidade as crianças, sou contra ao vender a qualquer custo e mais contra ainda a esse "amadurecimento" forçado, perda da infância que as crianças perdem hoje, quando trocam uma brincadeira na rua pelo computador ou tv.
    Depois vou assistir o documentário.

    Beijo

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  2. Tema do ENEM, e realmente eu apoio a negação de tais comerciais.
    Sexo, Fraldas e Rock'n Roll

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  3. Desde a prova do ENEM eu e meu cunhado temos travado uma luta em relação a opiniões sobre a propaganda infantil, eu confesso Erica que concordo e endosso cada uma dessas suas palavras. Vi esse documentário, mas antes disso a publicidade infantil já me incomodava, meu dialogo com a pequena infantil tem quase 10 anos néh e vejo isso constantemente e ainda mais com os adolescentes...

    Eu sempre digo, que mesmo um pai que é atento ao que da aos filhos dificilmente vence a TV na disputa. A TV NUNCA diz não as crianças, nunca diz que você não pode ou não deve ou coloca de castigo, é claro que as crianças vão sempre achar que em relação aos pais a TV é mais legal... E no final o pai que não dá o presente/caderno/sapata/roupa/doce da moda é que é o chato...

    Enfim, sou muito a favor da regulamentação da propaganda voltada a criança.

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