24 janeiro 2015

A janela e os pássaros - Eliana Neves


Olá, pessoal! Tudo bem? Hoje eu, Erica Ferro, trago um escrito muito belo de uma amiga que me é muito querida, a Eliana Neves. É um conto que fala de um amor puro, sublime e muito especial. A Eliana fala de amor com muita doçura e muita leveza nas palavras. É impossível não se encantar ou não soltar um suspiro, ainda que pequeno e/ou tímido no decorrer e ao fim desse conto. Eliana me mostrou o conto A janela e os pássaros em primeira mão, o que me deixou muito honrada, e me autorizou a publicá-lo aqui no blog.
Abram os seus corações e recebam essa linda mensagem!

A janela e os pássaros -  Eliana Neves


O verão naquele ano foi bastante intenso. Era comum os moradores de Várgea do Norte se refrescarem em suas janelas. Passavam horas nas sacadas para receber o ventinho que vinha do sul e, aproveitando para isso, colocarem as conversas em dias, ou melhor, acompanhar com olhos não muitos discretos a vida alheia.
Que verão foi aquele! Nem o maior dos mexeriqueiros poderia imaginar que aquele dito verão daria o que falar naquela cidadezinha.
De todas as janelas em Várgea do Norte havia uma que era especial. O que a fazia tão especial era aquela senhora. Todas as manhãs, parecia um ritual, ela abria a janela de seu quarto como se estivesse abraçando o mundo. O seu sorriso se confundia com os raios do sol que penetravam feito cometa a iluminar a alcova de um amor amado no silêncio.
Podia-se ver o brilho que trazia no olhar, a alegria de suas gargalhadas que mais se parecia a uma cantoria de cotovias. Por que uma cotovia? Sim, é ela que anuncia o novo dia! Que mulher encantadora! Não era bonita, mas tinha lá seus predicados de beleza. Não sei o quê ou qual era o quê naquela mulher que chamava a atenção de todos que passavam pelo outro lado da rua. Não havia um só homem que não lhe fizesse a corte ou uma só mulher para não lhe atribuir um novo defeito. “Que bela senhora!” – Pensavam eles enquanto acenavam reclinando suas cabeças.
Todavia, aquela senhora – agora a chamaremos pelo codinome de Cotovia – só tinha olhos para um só amante – um Rouxinol. Rouxinol? O que faz dizer que ele seria um rouxinol? Posso afirmar que não há ave igual na cantoria para embalar o ninho dos amantes durante toda a noite. Ele era, sim, capaz de “cantar” para sua amada sem jamais se cansar. Era assim que ele se definia para os mais íntimos: “uma tempestade disfarçada de calmaria num fim de tarde de inverno.”
A Cotovia era gentil e alegre com todos, mas somente para aquele Rouxinol seu canto saía perfeito. Tudo se fazia especial. Seus olhos brilhavam, sua respiração ficava ofegante quando ele se aproximava, sua pele exalava um perfume que só aquele belo Rouxinol era capaz de sentir. Funcionava como se fosse um feromônio que os insetos exalam para o acasalamento. Aquele cheiro da Cotovia tinha um efeito devastador sobre o Rouxinol. E o que dizer do coração dela? Ah... o coração! Ele pulsava numa nota só: “Eu te amo!” E o olhar? Quando os olhos deles se encontravam em meio ao barulho do dia, em meio à clandestinidade... Tudo era silêncio. Eles não precisavam falar nada, pois aquela linguagem era suficiente. Por instantes, que mais pareciam uma eternidade naquele momento, enquanto ela fechava ternamente seus olhos abrindo-os em seguida para dizer “eu gosto muito de você”; ele, porém, permanecia com um olhar firme fitando-a. Era como se dissesse: “Sofro. Te amo. Te quero como nunca quis outrem.”
Mas, por que dizer que o amor era amado no silêncio da tarde ou na escuridão da noite? Apenas o que se sabe é que os amantes não poderiam revelar seu amor, haviam feito uma escolha e não podiam voltar mais atrás. Existia algo maior do que eles que impedia que pudessem viver tamanho bem querer e afeto e uma grande paixão que perdurou por alguns anos.
Não foram poucas as vezes que o amor deles passou por crises. Que cruel! Da mesma forma que viviam a paixão no silêncio do ninho, da mesma forma viviam as separações no silêncio das lágrimas. Esse amor no toque, no olhar, no cheiro e no sorriso também vivia as suas controvérsias. Era como que, de repente, a harmonia que sentiam um pelo outro pudesse se desfazer de modo que ninguém mais conseguia ouvir mais a música que saía de seus corações. Muitas vezes, surgiam dúvidas de quem amava mais. Ambos estavam enganados. A cada crise nunca havia um vencedor, apenas retalhos a serem costurados, cacos a serem juntados e galhos do ninho despedaçado. Quantas coisas pairavam sobre eles, embora soubessem que se amavam.
Certo dia, a nuvem mais nebulosa veio sobre eles. Já não parecia que se conheciam, que se amavam. Eram estranhos. Após palavras e atitudes tristes, um grande silêncio tomou conta deles. Em seus corações já não havia mais música, o jardim já não estava mais florido como antes. O mundo deles não existia mais. O ninho se desfez. Por falar em jardim, sabe aquele jardim da alma? Aquele jardim que somente pouquíssimas pessoas podem entrar e tocar o orvalho das flores no amanhecer? Sentarem num banquinho para observarem a revoada de pássaros quando o entardecer chega Pois bem, naquele infame dia, o Rouxinol, movido pelo mais desgraçado sentimento, proferiu palavras duras ao dizer que sua Cotovia jamais entraria novamente em seu jardim secreto. Era uma tentativa desesperada da passionalidade para dizer: “Não quero mais você em minha vida.” Que engano! Naquele mesmo dia, antes mesmo que rompesse a noite, o pobre Rouxinol cantava em prantos de dor pelo arrependimento por ter ferido sua bela Cotovia.
Os dias se passavam e o peso da mágoa ainda encobria o canto da Cotovia. Aquele sorriso que contagiava a todos também desapareceu da face da Cotovia. Para não dá a entender o que se passava no seu interior, dissimulava a alegria. Enquanto ela tentava disfarçar para quem a conhecia o que estava acontecendo, o Rouxinol caía em melancolia. Talvez ainda fosse cedo, mas nada que ele pudesse falar iria fazê-la mudar de ideia naquele momento. Como eram longos aqueles dias! Eles se arrastavam por entre a tristeza dos amantes. Sem sucesso, pedidos de perdão foram cantados pelo Rouxinol na melodia mais triste que já se ouviu na natureza. Igualmente respondeu a Cotovia, por trás da janela – desde que aconteceu a separação, sua janela não se abria mais. E todos os seus admiradores passavam e se perguntavam o que estava acontecendo com a bela senhora que já não dava mais o ar de sua graça debruçada na janela mais florida de toda a cidade.
O que somente ela respondia era que precisaria de tempo para curar tão medonha ferida aberta por quem só deveria amar e amar e amar. Ó Cotovia! Agora defendo o pobre Rouxinol. Quem já não ouviu dizer que uma chuva de contradições provoca a alma humana constantemente? Será unicamente o amor capaz de ser imune às ciladas da dicotomia dos outros sentimentos? Não, bela senhora. Nem mesmo o amor pode ficar ileso de ser machucado por aqueles que amamos. Muitas vezes ele disse para ela: “Você tem o pior e o melhor de mim. E sabe por quê? Porque tudo em mim é verdadeiro e intenso.”
Como nada ainda surtia efeito, tomou o Rouxinol uma atitude. Decidiu, a cada manhã, levar um galhinho verde todos os dias - feito um contrato, uma religião – e assim, colocar na janela da amada. Era seu pedido de perdão até que sua amada lhe perdoasse devolvendo outro galho verde. E assim ficou: a cada amanhecer, um novo galhinho verde fazia companhia a outros do dia anterior, se juntava às flores da janela. Cada galho continha cinco folhas. A simbologia do número 5 era importante para os amantes, pois como não podiam se declarar publicamente, trataram de criar algo que pudesse identificar o amor de ambos; na verdade, foi a Cotovia quem criou os cinco pontos (.. ...). Fiquei sabendo anos depois que isso .. ... significava isto: “EU TE AMO”. Desde então, cada carta, bilhete, dedicatórias ou qualquer outra coisa que remetesse aos cinco pontos lembrava o amor deles.
Embora a Cotovia já ensaiasse algumas falas, ainda não era como antes. Talvez nunca mais fosse. Mas, mesmo assim, todos os dias o Rouxinol voava até a janela dela para ver se estava aberta e reparava que os galhinhos haviam sido recolhidos. Ele se alegrava, mas sempre esperava mais.
Por fim, tomou outra decisão: levou seu próprio coração. Debaixo daquela janela, cantou e cantou e cantou sem parar até que a bela senhora abrisse novamente sua janela como ela fazia antes, como um ritual. O belo Rouxinol não se importava mais com quem passava pela rua, em pouco tempo todos de Várzea do Norte puderam conhecer o canto, o choro, a alegria e a tristeza do Rouxinol a espera de sua Cotovia. Por horas e horas, lá estava ele a cantar, a esperar o ranger da janela se abrir. E com ele, toda a expectativa dos curiosos. Já não se importavam mais que o amor deles não era aceito por muitos, que durante muito tempo foi vivido às escondidas, era um amor quase impossível. De tão ditosa alegria e dor do Rouxinol, todos passaram a esperar junto com ele a bela Cotovia sair na janela com aquele sorriso tão lindo. 
Já se fazia cair a tarde quando a janela se abriu lentamente. E lentamente também todos foram silenciando. Aquele momento era dos amantes. A bela Cotovia surgiu na sacada da janela. Estava tão linda com seu vestido ternamente estampado combinando com aquele fim de tarde de verão. Ela trazia consigo um pequeno ramalhete feito de pequenos galhos verdes e era possível ver, em cada um, as cinco folhinhas. Por quase uma eternidade aqueles olhares se encontraram novamente. Foi então que ela arremessou o ramalhete até ele.
Então, ele cantou como nunca havia antes cantado. Que belo canto! Que belo perdão! Mas ainda faltava algo a fazer. O Rouxinol, dali mesmo, com ajuda de outros, voou até ela pousando rente ao seu rosto.
Enfim, eles tinham muito que cantar ainda .. ...

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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

4 comentários:

  1. Gente que coisa mais linda. Terminei o texto com lagrimas nos olhos. Meus parabéns Eliana, você escreve muito bem e me emocionou muito com o conto.

    Blog Prefácio

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  2. Nossa, que conto lindo! Ainda não conhecia a Eliana, mas gostei muito do estilo dela, e do jeito que ela usa as palavras.

    Érica, li seu comentário sobre o livro Extraordinário, e gostaria de dizer que pelo tempo que conheço e você e seu blog, posso dizer que você é não só uma lutadora, mas uma vencedora, que não vence somente na natação, mas também na vida!

    Tem sorteio lá no blog!
    Beijão, www.opinada.com

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  3. Lindo conto, com certeza inspirador!

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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  4. Lindo! A Eliana é como a cotovia... canta contos com o coração. Parabéns e sucesso meninas.
    Bjs

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