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21/07/16

A palavra de ordem é SUPERAR!


Quem me conhece, sabe que eu não me sinto muito bem quando me veem como alguém que serve de exemplo para os outros, só pelo fato de ter uma síndrome rara e levar uma vida normal, como qualquer outro ser humano. Simplesmente a Síndrome de Moebius não resume quem eu sou, apenas é uma – importante – parte de mim. Sou mais que um rosto paralisado. Sou mais do que uma dicção peculiar. Sempre gosto de frisar isso. Mas é fato de que nós, todos os dias, nos deparamos com barreiras e que precisamos vencê-las. Certamente vocês já derrubaram vários obstáculos ao longo dos anos. Eu também. Somos, vocês e eu, exemplos de superação, querendo ou não. E é disso que quero falar hoje, sobre uma superação minha, uma que eu acho que vale a pena compartilhar. Houve um episódio que marcou muito negativamente a minha vida. Tal acontecimento se deu na escola, mais precisamente numa apresentação de seminário no segundo ano do Ensino Médio. Eu sempre tive receio de apresentar com medo de piadinhas e risos dos que assistiam. No entanto, quase sempre tive a sorte de ter colegas de turma que me aceitaram e me respeitaram do jeitinho único que sou. 

Quase sempre. Lembro-me como se fosse hoje, quando estava apresentando um trabalho de Filosofia, salvo engano, quando ouvi uma pessoa dizer, sem nenhuma gentileza muito menos empatia, com sorriso de escárnio, “Ai! Alguém traduz aí? Cadê a tradução simultânea?”. Parei, fiquei sem chão e não consegui dizer nada. A única coisa que consegui foi entregar a minha parte a uma colega de equipe e dizer que não mais apresentaria. Aparentemente, só eu ouvi, porque a colega não entendeu porque entreguei a minha parte a ela, mas, mesmo assim, finalizou a apresentação. Depois que acabou, a sala virou um pandemônio, porque os colegas souberam do que a pessoa havia dito comigo e todos saíram em minha defesa. Ao ouvir todo aquele estardalhaço, eu corri, corri pra bem longe da sala e fui chorar no banheiro. Estava arrasada. Tudo bem não entendermos o outro. Não entender algo que o outro diz é normal, até mesmo para quem tem uma dicção considerada perfeita. Mas o que a tal pessoa fez comigo foi um tanto cruel. Ela me desestabilizou totalmente e fez com que eu me sentisse uma espécie de alienígena caída, por acidente, na Terra. Após isso, eu não apresentei mais trabalhos, mesmo com todos (colegas de classe e professores) falando pra que eu apresentasse, que eles me entendiam, que eu não poderia me deixar abater por pessoas sem noção. Porém, eu não conseguia. Passei a ter pânico de apresentações de trabalhos. Perdi pontos por só entregar trabalhos escritos, sem a parte do seminário. Mas não consegui superar aquilo.

Quando terminei o Ensino Médio, entrei em crise, porque eu queria ingressar no ensino superior, mas todos falavam que na universidade a cobrança era alta e havia MUITOS seminários. Ouvi “seminário”, travei. Me sabotei de todas as formas para não entrar no Ensino Superior. Eu não conseguia superar o fato de que eu precisava lidar com o público. Eu não conseguia vencer o trauma do ensino médio. Eu não conseguia esquecer a imagem daquela pessoa, sorrindo com escárnio, de mim.

Finalmente, consegui me forçar a fazer ENEM e, depois de cinco anos de sabotagem comigo mesma, entrei no curso de Biblioteconomia da UFAL. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu consegui entrar, mas confesso que com o coração na mão, com muito medo do que aconteceria a partir de então. E só me aconteceu boas coisas, PARA A MINHAAAAA ALEGRIAAAA e surpresa. Já no segundo semestre, entrei num projeto de iniciação científica (PIBIC). Ganhei o coraçãozinho da minha turma (2013.1) e, finalmente, fui perdendo o medo de falar, de me posicionar, de estar na linha de frente.

Então, nesse semestre, eu me matriculei numa disciplina eletiva chamada Seminários de Integração em Biblioteconomia e Ciência da Informação achando que era eletiva do sexto ou do sétimo. Qual não foi a minha surpresa em chegar lá e me deparar com uma turma totalmente desconhecida. Momento de pânico. “Onde estou? Quem são essas pessoas?”. Eu caí de paraquedas no terceiro período. Não conheço ninguém (com exceção de umas novas colegas de turma muito bacanas que já foram gentis). Como o nome da disciplina denuncia, é uma disciplina de SEMINÁRIOS. Imagina a dor no coração que eu senti hoje quando o professor disse “Juntem-se em duplas ou trios, elaborem suas falas sobre texto x, que daqui a 25 minutos faremos um seminário.”. Pensei “E agora? Será que alguém vai rir? Será que alguém vai pedir tradução simultânea? Será que alguém vai ser cruel comigo? Será que vou reviver aquela cena lá do ensino médio?”. Mantive o controle emocional, elaborei minha fala e encarei aquelas pessoas que não conheço e que não me conhecem. Espantosamente, eu estava muito calma, muito tranquila comigo mesma. Falei tudo o que eu precisava falar. Terminei. Ninguém riu. Ninguém agiu de modo ofensivo. Senti uma paz enorme. Mesmo que alguém tivesse rido, mesmo que alguém tivesse sido cruel, eu percebi que nada nem ninguém conseguirá mais me abalar. Não em relação a apresentação de seminários.

Eu superei o trauma do ensino médio. Eu, verdadeiramente, não sinto mais vontade de me esconder, de me isolar, de me deixar à margem. Doa a quem dor, custe o que custar, eu existo. Eu estou aqui e não vou mais me sabotar. Não vou mais me anular. Não vou mais deixar meus sonhos na gaveta por medo de encarar o mundo, que por muitas vezes é cruel e impiedoso com toda e qualquer pessoa denominada “diferente”. E o que eu quero dizer, para finalizar, é isso: nunca deixem que lhe magoem a ponto de vocês desistirem de seus sonhos, nem que sejam por cinco minutos, cinco meses ou cinco anos. Mesmo que o mundo seja impiedoso e cruel, não desistam de vocês mesmos. Vocês não precisam de permissão de ninguém para serem quem são. Sejam gentis, mas saibam batalhar por seus direitos e por seus lugares ao sol. Vocês não precisam de aval de ninguém para serem felizes. Lembrem-se disso, sonhem muito, trabalhem ainda mais e ganhem o mundo. A vida é bela, sobretudo quando sabemos extrair o melhor de tudo que vivemos.

Com amor,
Erica Ferro
21/07/2016

24/01/16

24/01: Dia Mundial de Consciência Sobre a Síndrome de Moebius


No dia 18 de julho de 2015, fiz uma postagem muito importante aqui no blog - e muito emocionada também. Falei abertamente, como nunca havia falado antes, sobre a síndrome que tenho. A maioria já sabia que eu tinha algum tipo de deficiência, nunca escondi que não tenho a mão esquerda, o pé direito e paralisia facial. Entretanto, nunca havia contado o que ocasionou essa minha má formação congênita. Então, no fatídico 18 de julho, consegui superar todos os meus receios e postar sobre um assunto extremamente sério, mas, ao mesmo tempo, essencial, que deve ser divulgado, para que essa condição tão rara um dia seja devidamente conhecida nos quatro cantos do Brasil e do mundo, a fim de minimizar a desinformação que tanto causa tolos preconceitos e cruéis discriminações.

Dia 24 de janeiro é um dia especial tanto para os portadores da Síndrome de Moebius quanto para os seus familiares e amigos, pois é um dia em que pessoas do mundo todo se voltam para reflexões concernentes a síndrome, bem como comemoram as suas conquistas e relatam as suas histórias de vida. 

Eu poderia dizer que ter uma síndrome que afeta diretamente a face, mais precisamente o sexto e sétimo nervos cranianos responsáveis pela mímica facial e pelo movimento lateral dos olhos, não é um campo de violetas. Ainda mais se levarmos em conta a exaltação de corpos e rostos perfeitos que a sociedade impiedosamente prega e, em vão, tanto busca.

Eu também poderia dizer que aprendi, ao longo dos meus 25 anos, a me desvencilhar dos pensamentos de inferioridade em relação aos seres humanos ditos normais. Não sou FORA DO NORMAL por ter uma raríssima síndrome. Sou FORA DO NORMAL por ter me transformado no que sou eu hoje, apesar de todos os empecilhos que surgiram em meu caminho. Sou FORA DO NORMAL porque soube lidar com as palavras ofensivas e olhares de pena e/ou repulsa dirigidos a mim. Sou FORA DO NORMAL porque me recuso a entregar os pontos, mesmo quando sinto que não me encaixo nesse mundo caótico e extremamente discriminador. Sou FORA DO NORMAL porque ainda acredito na capacidade das pessoas de surpreenderem positivamente umas às outras. Há uns seres desumanos que se assemelham a maçãs podres, e tudo o que eles mais querem é minar a alegria dos outros. São esses seres que desestabilizam tantas pessoas tidas como diferentes e fora de um padrão inalcançável que alguma criatura sem noção criou. Desconsideremos-as. Foquemos nossos olhares nas doces e boas maçãs.

Eu poderia dizer mais: que devemos buscar uma força imensa que há dentro de nós. Força essa que é inesgotável. Essa força nos mostrará a verdade que tantos membros dessa louca sociedade ignoram: o que mais importa em um ser humano não pode ser visto, apenas sentido. O que realmente é importante “é invisível aos olhos”, já dizia Antoine de Saint-Exupéry. Falo de essência, do que carregamos na alma e no coração.
Mas nesse dia arroxeado – cor que se escolheu para representar a nossa síndrome - só quero dizer uma coisa: ignoremos toda a negatividade, nos agarremos ao que nos faz bem e nos torna seres melhores e jamais deixemos de ser felizes. A vida vale a pena, sempre. A existência é da cor que nós damos a ela. E eu quero que a minha continue sendo um lindo arco-íris.

Meu nome é Erica Ferro, tenho 25 anos e sou alagoana. Sou estudante de Biblioteconomia e nadadora paralímpica. Mas, sobretudo, sou uma sonhadora – e não sou a única #‎beijosjohnlennon.
Faço questão de desconhecer limites. Não tenho asas, mas teimo em voar. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.
“Para o alto e avante!”, como diz minha amada amiga Isabella Robinson.

Agradeço aos meus familiares e amigos queridos, que sempre me brindam com lindas palavras e adoráveis elogios e incentivos. A vida é mais colorida e bonita com vocês! Estamos juntos e misturados, sempre! Meu sorriso está no rosto de cada um de vocês. E isso não tem preço! Muito obrigada por tudo!

Sigamos todos, pois, com força, graça e fé!

Erica Ferro

22/01/16

Filme: Anita

Título: Anita
Ano de produção: 2009
Direção: Marcos Carnevale
Duração: 104 minutos
Gênero: Drama
País: Argentina
Sinopse: Anita é uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com sua mãe, Dora, que, além de mãe, é uma cuidadora extremamente zelosa. Na manhã de 18 de julho de 1994, Dora sai de casa para ir a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA resolver umas coisas, e deixa Anita em casa, lhe avisando que volta logo. No entanto, há um ataque a bomba na AMIA, e os tremores chegam a residência de Anita, destruindo parte da casa e dos móveis. Sozinha e sem entender o que está se passando, Anita sai às ruas. Nessa perambulação na procura por sua mãe, aprende a cuidar de si mesma, à sua maneira, e encontra algumas pessoas gentis e outras nem tanto assim, sempre as tocando de forma singular.

O ano é o de 1994 e a estória é a de Anita, uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com a sua mãe, Dora, em Buenos Aires. Dora é extremamente cuidadosa para com Anita. Trata-a como uma boneca de porcelana, lhe faz Maria-chiquinha e lida com a filha como se esta fosse uma criança de, no máximo, cinco anos. Dora se esqueceu de que não possuía a dádiva da imortalidade e não criou uma Anita com o mínimo de autonomia, capaz de saber de si e dos outros.


Na manhã do dia 18 de julho de 1994, Dora informa a Anita que irá a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA para resolver umas questões, mas logo volta para casa. Poucos minutos depois que Dora saiu de casa, houve um trágico acontecimento: um atentado a bomba a AMIA, que matou 85 pessoas e deixou 300 feridas. O atentado se trata de um caso real e Marcos Carnevale, diretor dessa belíssima película argentina, teve tato para retratá-lo com fidedignidade e respeito às vítimas e seus familiares. O caos do atentado, todas aquelas pessoas perambulando pelas ruas, sofrendo por estarem feridas e/ou por seus parentes estarem desaparecidos ou mortos é o pano de fundo da odisseia de Anita.


A destruição causada pelas bombas chegou até a residência de Anita, destruindo uma parte da casa e dos móveis. Assustada, Anita saiu às ruas, desnorteada, procurando por sua mãe. Extremamente doce e pura, Anita não sabe o endereço de onde mora, o nome de sua mãe ou o número de telefone da sua casa ou de algum parente. Ela não foi criada para lidar com o mundo e as pessoas.


Nessa série de desventuras, Anita se depara com Felix, um fotógrafo com tendência ao alcoolismo, que tem como esporte reclamar da vida e se sentir o homem mais miserável do mundo. Ele permite que Anita fique em sua casa por dois dias e cuida dela da melhor maneira que consegue. No entanto, às vezes, nós, humanos, deixamos falar mais alto aquela máxima egoísta "O que eu tenho a ver com isso?" e lavamos nossas mãos.


Nossa Anita continua em sua caminhada, constatando o quanto as pessoas podem ser adoráveis, bem como podem ser desumanas. Eis que conhece Nori e seu irmão, que, se num primeiro momento não sabem lidar com Anita, logo descobrem o quanto ela é uma pessoa especial, doce e inteligente. Anita, de fato, é uma criatura encantadora e de uma capacidade muito maior do que sua mãe julgava que ela tinha. São eles que ajudam Anita a voltar para os seus familiares.


O atentado a AMIA foi uma dura lição sobre o valor da família para Ariel, irmão de Anita, que estava sempre ocupado demais para sua mãe e sua irmã. Somos muito procrastinadores no nosso dia a dia, ignoramos pedidos simples de quem amamos e que nos ama também, porque estamos muito atarefados para lidar com isso no momento. Erro terrível, pois deixamos passar oportunidades ímpares e desperdiçamos momentos que jamais hão de voltar. Deveríamos dar mais atenção àquele dito "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje...".


A grande estrela do filme é Anita, que, com a sua doçura e olhar simples frente a vida, encanta a todos que passam por seu caminho. Acredito que um das grandes lições que o filme quer apresentar é justamente a irracionalidade do terrorismo. Terrorismo trata-se de atos bárbaros que destroem famílias e ceifam vidas. Não há nada que justifique atos assim. Nada. 
Outra mensagem fundamental que acredito que o filme busca passar é um alerta aos pais que protegem ao extremo os seus filhos com alguma síndrome e/ou deficiência, lidando com eles como se fossem bebês, como se os deficientes fossem incapazes de viver no mundo e de ter o mínimo de autonomia possível. Somos todos capazes de quebrar barreiras e de ir além do que acham que podemos ir. Com estimulação e uma excelente orientação, todas as pessoas podem ser capazes de feitos extraordinários, tendo uma deficiência ou não. 
E, por último, mas jamais menos importante, o filme é sobre gentileza, amor e simplicidade. A vida fica tão melhor quando adicionamos gentileza, amor e simplicidade aos nossos atos. Tudo bem que gentileza nem sempre gera gentileza, porque sempre existirão pessoas ranzinzas no mundo. No entanto, não é por isso que deixaremos de ser gentis. O amor deve ser sempre o Leitmotiv da nossa vida. Para o nosso cotidiano ser mais florido e a nossa vida ter cores vivas e bonitas, a nossa existência deve ser pautada na gentileza, no amor e na simplicidade. Assim, fica bem mais fácil viver!

O filme tem o ritmo certo para nos encantar, emocionar e nos fazer refletir sobre questões muito importantes acerca da vida e do viver. Para quem indico esse filme? Todos, sem exceção. É um filme com doses certas de agruras, doçura, amor e aprendizados.

Erica Ferro

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30/08/15

Resenha: Extraordinário - R. J. Palacio

Extraordinário
R. J. Palacio
Editora Intrínseca
320 páginas
☺☺☺☺☺
Sinopse: August (Auggie) Pullman nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso, ele nunca havia frequentado uma escola... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros.
R. J. Palacio criou uma história edificante, repleta de amor e esperança, em que um grupo de pessoas luta para espalhar compaixão, aceitação e gentileza. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade – um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo o tipo de leitor.



"You are beautiful, no matter what they say
Você é bonita, não importa o que eles dizem
Words can't bring you down
Palavras não vão te fazer cair
You are beautiful, in every single way
Você é bonita, em todos os sentidos
Yes, words can't bring you down
Sim, palavras não vão te fazer cair"

(Christina Aguilera - Beautiful)

Extraordinário foi lançado em 2013 pela Editora Intrínseca e é o primeiro livro de autoria da norte-americana R. J. Palacio. R. J. atua há muitos anos no mercado editorial, mas nunca havia publicado nada, até que algo bastante desconcertante aconteceu com ela e os filhos, mais precisamente cinco anos antes de lançar esse livro. Em síntese, o que aconteceu foi o seguinte: ela e os filhos foram a uma sorveteria e, no meio tempo em que o filho mais velho tinha ido comprar milk shakes para eles, o filho mais novo, de apenas três anos, notou a presença de uma menininha com um rosto singular e, como, na sua inocência de criança, não sabia do que se tratava, se assustou e se pôs chorar muito. R. J. Palacio, totalmente desconcertada, muito preocupada em não machucar os sentimentos da menininha, chamou o filho mais velho, empurrou o carrinho do filho mais novo e tentou sair do local o mais rápido possível, derrubando os sorvetes em meio a confusão etc. Ela admite que entrou em pânico e não agiu de uma maneira sensata. Aquela cena na sorveteria não lhe saía da cabeça. Ficou imaginando em quantas vezes por dia aquela menininha, que na ocasião estava acompanhada da mãe e de uma menina que aparentemente era sua irmã, passava por situações tão lamentáveis quanto a que aconteceu com ela própria e seus filhos. Sentiu que o ato de correr em nada ajudou - nem ao filhinho nem a menininha. Notou que talvez tivesse sido melhor ter mantido a calma, quem sabe chamado a menininha e sua mãe pra conversar e mostrar ao seu filho que a menininha, aparecer dos traços diferentes, era uma criança como outra qualquer. Então ela se deu conta de que precisava fazer algo por essa menina e por tantas outras pessoas que sofrem com essa coisa deprimente que é a discriminação e a exclusão daqueles que fogem ao padrão de normalidade vigente, assim como outra coisa igualmente deprimente e horrenda conhecida como Bullying, seja por conta de uma deficiência ou por outros motivos que seres detestáveis acham justo escarnecer sobre essas pessoas. 
Quem me acompanha nas redes sociais e/ou quem leu meu penúltimo post, sabe que, por um bom tempo, eu meio que evitei ler Extraordinário, justamente por saber que me veria na maioria das situações pelas quais o personagem havia passado. Assim como Auggie, também tenho uma síndrome rara, e ela se chama Moebius. Sei bem como é ser tida como uma pessoa esquisita e, em alguns pontos de vista, "assustadora". Assim como esse menininho singular que R. J. Palacio criou, já experimentei do amargo e inesquecível gosto da discriminação causada pela falta de informação, mas, sobretudo, pela falta de gentileza de certas pessoas.
Extraordinário é narrado por August, familiares e amigos - uma sacada que eu achei fantástica, pois entramos em contato direto com Auggie, bem como o vemos pelos olhos de quem o conhece e convive com ele. Como diz na sinopse, Auggie aos dez anos nunca havia frequentado uma escola. Por conta das muitas cirurgias que fez, Auggie passou muito tempo em hospitais, ora operando, ora se recuperando das operações. Sua mãe, com amor incondicional, ensinava a Auggie uma porção de coisas que prontamente ele aprendia, afinal esperteza não lhe faltava.
Porém, eis que o momento chegou e o Auggie precisou ir a escola e encarar não uma, mas várias crianças o olhando como se fosse uma aberração e o evitando como se ele tivesse algo de contagioso. No entanto, assim como eu sempre fiz na minha vida, Auggie as conquistou e mostrou que possuía uma personalidade ímpar e assim elas passaram da repulsa e estranhamento a admiração e o respeito pelo garotinho com a face "deformada", mas com um coração e atitudes extremamente lindas. R. J. Palacio criou um menino por vezes inocente demais para sua idade, bem como maduro demais para ter dez anos. E crível. Não acho que aos dez anos eu era tão maravilhosa quanto Auggie. Contudo, não foi difícil devanear e pensar que é possível existir, por aí, por esse mundo afora, um menininho com os trejeitos, pensamentos e sentimentos semelhantes a ele.
A estória de Auggie poderia ser a minha história e a de tantas outras pessoas com uma deficiência facial. É um livro que precisa ser lido por todos. Todos mesmo. Aliás, faço uma pausa para mandar um abraço todo especial para Tailany Costa, do Despindo Estórias. Ela cursa Letras e, em um dos projetos da universidade, pediu aos seus alunos que lessem Extraordinário. Ela disse que escolheu esse livro inspirada na minha querida pessoa. É ou não é uma fofa? Claro que é! Continuando... Embora Extraordinário seja um livro que trata de eventos com uma carga dramática considerável, R. J. Palacio foi muito sábia ao pincelar tais acontecimentos com uma leveza incrível. É uma leitura que nos faz chorar e depois rir, pra logo após chorar de novo e assim rir outra vez. E é uma leitura que encanta, que faz com que queiramos fazer um mundo melhor para nós e para os outros. É um livro que fala sobre a importância de ser gentil nesse mundo cada vez mais sem harmonia e amor.
O que precisamos ter em mente é que somos todos humanos, iguais no sentido de termos que ser respeitados pelo que somos e exatamente do jeito que somos. Sabe aquela coisa de "não fazer com os outros aquilo que não queremos que façam conosco"? Deixemos que a empatia e a gentileza tomem conta dos nossos pensamentos e de nossas ações. Se praticarmos isso, certamente faremos do mundo um lugar mais aprazível de ser habitado.

Erica Ferro

* * *
Curiosidade: esse é a 400ª postagem do Sacudindo Palavras. Oba! Bem... Curtam a fan page do blog e/ou sigam no Twitter.
Tenho uma fan page na qual falo sobre a minha carreira na natação paralímpica, bem como um pouco de tudo que rola no mundo esportivo de uma maneira geral etc.
Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

20/08/15

257 motivos para se orgulhar de ser brasileiro(a)

Seleção brasileira de natação paralímpica que representou o nosso país no Parapan de Toronto.

A delegação brasileira fez a melhor campanha da história nesses Jogos Parapan-Americanos de Toronto. Friso: a melhor campanha de toda a História dos jogos Parapan Am. Quantos vibraram com isso? Quantos sentiram orgulho de ser brasileiros nas 257 vezes que o Brasil subiu ao pódio? Quantos anunciaram, com euforia e extremo orgulho, que o Brasil finalizou a sua campanha em primeiro lugar isolado, com mais medalhas de ouro do que o segundo e terceiro colocados juntos?
Não gosto de fazer comparações, mas, nesse caso, não poderia deixar de fazer um comparativo bem pertinente. No Pan-Americano, o Brasil finalizou a sua participação na terceira colocação. Foram 41 ouros, 40 pratas e 60 bronzes. No Parapan, como disse anteriormente, o Brasil fechou a competição em primeiríssimo lugar disparado. Foram 109 ouros, 74 pratas e 74 bronzes.
Obviamente que não podemos ignorar o fato de que todas as modalidades do esporte paralímpico são divididas por categorias, definidas mediante uma classificação funcional, que avaliará o grau da deficiência e colocará o atleta em uma classe em que a sua deficiência se assemelhe aos dos outros atletas da referida classe.
Na natação, por exemplo, existem catorze categorias. Teoricamente, são catorze chances de o Brasil medalhar, embora isso seja relativo, afinal é bem difícil ter uma delegação em que figure atletas de todas as categorias. O fato é que o número de medalhas de um evento paralímpico sempre será maior do que o de um olímpico. Porém, é nítido que quando esse número é muito maior significa algo, certo?
O Brasil é uma potência paralímpica. Isso é inegável, inquestionável. Os números provam isso. Muitos dos maiores atletas paralímpicos do mundo são brasileiros. Isso me enche de orgulho! Mas... Será que isso só acontece comigo e com os meus companheiros de movimento paralímpico?
Qual é o nome desse fenômeno que faz uma medalha olímpica comover, emocionar e fazer vibrar muito mais do que uma paralímpica? Será que tem a ver com fato de a sociedade ainda nos enxergar como super-heróis ou coitadinhos? Nós, atletas paralímpicos, somos menos brasileiros do que os atletas olímpicos? Não, certo? E por que a medalha paralímpica parece valer menos? Menos orgulho, menos divulgação, menos comoção, menos vibração, menos reconhecimento, menos empolgação.
Quando lembram de noticiar algo sobre o esporte paralímpico, quase sempre a matéria ou reportagem irá conter os termos superação e exemplo de vida. Faço um apelo a mídia em geral: pare com isso. Pessoas com deficiência congênitas aprendem desde cedo a usar o seu corpo no máximo da sua capacidade. Pessoas que adquirem uma deficiência também aprendem a potencializar as suas habilidades, compensando o que passou a lhes faltar. Não há nada de extraordinário nisso.
É extremamente frustrante ver compartilhamentos de imagens de pessoas com deficiência com frases de efeito do tipo “Qual é mesmo o seu problema?”. Caramba! Ter uma deficiência não é um problema. Essas imagens é que são problemáticas. Os maiores problemas que nós, pessoas com deficiência, temos não tem a ver com a nossa deficiência, mas sim com a negligência para com nossos direitos por parte dos governantes. Somos todos humanos, que passam por dificuldades, que se entristecem e que se irritam. Isso é absolutamente normal. É uma atitude horrível medir a nossa sorte ou azar baseados na vida alheia. Enquanto a sociedade não entender isso, ela continuará a superestimar ou subestimar as pessoas com deficiências. E, assim, essas pessoas perderão 257 motivos para se orgulhar, franca e genuinamente, de ser brasileiras.

Esse foi o meu desabafo. Sou uma pessoa com deficiência. Sou uma atleta paralímpica. Sou um ser humano. Sou Erica Ferro.
Somos todos humanos. Somos todos brasileiros. Somos todos iguais nas diferenças!

18/07/15

Confissão extraordinária

Fingirei que vocês, meus leitores, são padres e aqui é um confessionário.
Preciso lhes contar que estou lendo Extraordinário. E está sendo extraordinária a forma como estou me identificando com esse livro. Eu já sabia que seria assim, por isso havia em mim uma mistura de medo e muita vontade de ler esse livro. É que Auggie, o personagem central da estória, tem uma deformidade facial congênita. As pessoas se chocam ao vê-lo; crianças gritam, choram e correm; adultos disfarçam o susto e agem exageradamente agradáveis com ele. À medida que leio, simulo uma conversa com Auggie e quase sempre digo “Eu sei exatamente como você se sente. Eu já passei e às vezes ainda passo por isso...”.
O primeiro parágrafo não faz parte da confissão, como perceberam. Foi uma introdução, uma enrolação. A confissão começa agora. Acredito que a maioria das pessoas que me lê sabe que sou deficiente, mas jamais falei sobre isso do modo que farei agora: nasci com uma síndrome denominada Moëbius. Ela me causou paralisia facial bilateral e prejudicou a minha fala. Möebius afeta os nervos cranianos responsáveis pela mímica facial e pela boa dicção (entre outras coisas). Também em decorrência da síndrome, nasci com má formação no braço esquerdo e na perna direita (resultando na ausência da mão esquerda e do pé direito), prejudicando também, em diferentes graus, a força muscular dos quatro membros. Ufa! Acho que tirei um enorme peso da minha alma agora! Quando eu falava sobre a minha deficiência, evitava ao máximo usar o termo Möebius. Por quê? Porque, ao pesquisar no Google sobre o que tenho, recebi alguns resultados bem... deprimentes. Alguns sites dizem que a minha síndrome é bizarra, é horripilante, é sinistra. Ao que parece, ter estrabismo, epicanto nos olhos, dentes um pouco desalinhados e uma boca esteticamente diferente é bizarro, é horripilante. Não queria que as pessoas fossem procurar a respeito do que tenho e dessem de cara com esses resultados. Eu não quero ser vista como bizarra, embora alguns seres me considerem assim. E é por isso que evitei por esse tempo todo escrever a palavra Möebius.
No entanto, eu tenho Möebius. Möeeeeebius. Möebiiiiiius. Möebiuuuuus. Por que esconder? Afinal, não é tudo que eu sou, apenas faz parte de quem eu sou. Foram-se os dias que os olhares curiosos, assustados ou perturbados por causa da minha aparência física me incomodavam ao ponto de eu querer chorar e me enfiar numa caverna e nunca mais sair de lá. Foram-se os anos que eu não saia de casa com medo da reação das pessoas ao me verem na rua. Foram-se os tempos que Möebius fazia com que eu criasse barreiras entre mim e o mundo. Foram-se para sempre, amém.
No auge dos meus 25 anos, posso dizer que cresci muito. Hoje, passa o seguinte pensamento pela minha cabeça: as pessoas sempre vão me olhar diferente num primeiro momento. Afinal, a minha aparência é incomum nesse mundo plastificado, de rostos cheios de botox, de bundas e peitos siliconados. Por que a opinião de pessoas que eu não conheço e que muito menos me conhecem deveria me incomodar tanto a ponto de eu ter vergonha de quem eu sou? Bobagem das maiores que há no mundo!
Mais uma confissão. Ainda não me amo como deveria. Há dias em que gostaria de ter um rosto esteticamente bonito, dentro dos padrões de beleza vigentes. Entretanto, aprendi a me respeitar e a reconhecer as minhas qualidades e, especialmente, a parar de me depreciar, coisa que fazia frequentemente anos atrás.
Se eu tivesse que resumir como é ter Möebius, seria mais ou menos assim:
Ter a síndrome de Möebius não é maravilhoso, mas também não é o fim do mundo. Na verdade, Möebius nos dá a chance de descobrir grandes valores. Entre eles, é que o que vemos não é mais que uma casca. O essencial é invisível aos olhos. Sorrir ultrapassa o ato de esticar os lábios e mostrar os dentes. Eu não consigo sorrir com a face, mas todos os dias gargalho adoidado por aí com as coisas loucas que faço e que a vida me faz passar. O meu sorriso mora no rosto daqueles a quem faço bem e que me fazem bem também. Minha voz é enrolada, mas ainda assim falo português e, com jeito, dá pra compreender. Então, meus amores, o que tenho a temer? Nada!
Levou tempo pra eu entender isso, e levou muito mais tempo pra que eu conseguisse praticar isso. Mas, no frigir dos ovos, isso importa? O que vale é que agora estou aqui, na estrada da vida, voando sobre as rodas do meu possante alucinado, aproveitando o que de bom a vida tem a oferecer, distribuindo risos, compartilhando com os transeuntes o que de melhor há em mim.
A vida é isso: viver (de preferência, sem medo; ou, ainda, superando os medos). Afinal, “o perigo existe, faz parte do jogo. Mas não fique triste, que viver é fogo. Comece de novo...”, bem diziam Vinícius e Toquinho. Eu que não sou besta de não dar ouvidos a eles!
Agora, para ilustrar esse post, quero deixar aqui uma foto bem marcante. Foi a primeira vez que vi pessoas com a mesma síndrome que eu. Na foto, Amanda, Gabriel e Julia (uma intrusa no meio dos esquisitos). A Amanda, inclusive, publicou um livro que conta um pouco da síndrome e que também traça como foi a sua vida até o momento em que o escreveu. O Gabriel é um rapaz muito louco, que detesta fotos e sempre revira os olhos ou faz algo bem tosco pra ferrar a foto. E escreve muito bem, à la Buk, essa é a parte que vale frisar.

Melhor legenda pra essa foto: "Festa estranha, com gente esquisita.".Sim, somos esteticamente estranhos. Temos uma sí...
Caso tenham dificuldade em me identificar na foto, sou a mocinha doce de camiseta adidas cinza com listras laranja

Por fim, acessem o site da Associação Möebius do Brasil - AMOB e conheçam mais sobre esse mundo inexplorado das criaturas moebitas, injustamente (?) chamadas de bizarras.
Dedico esse texto aos meus amigos moebitas (forma meiga que achamos de nos chamarmos) e aos seus familiares.
Estamos juntos nessa longa e louca estrada da vida!

Erica Ferro

09/03/15

Pelo direito de ser quem se é!

Muitos podem achar que ser deficiente é algo sofrido, difícil, triste e sombrio. Na verdade, ser deficiente não é o problema. Pelo menos eu, pessoa com deficiência, não vejo a minha deficiência como um problema. O problema é a falta de acessibilidade – que vai bem além de calçadas e rampas. E de conhecimento por parte dos não deficientes, claro.
Duas coisas que facilitariam bastante a vida das pessoas com deficiência: acessibilidade e o debate constante e maciço sobre o tema deficiência. Porque, veja bem, se as pessoas com deficiência tivessem assegurado o seu direito de ir e vir, bem como oportunidades de desenvolverem e aplicarem suas habilidades, seja no meio escolar/acadêmico e/ou no mercado de trabalho, muitos dos constrangimentos e lutas judiciais não precisariam existir.
Dia desses eu tive o desprazer de ler uma matéria a respeito da falta de acessibilidade enfrentada por umadvogado cadeirante num fórum de São Francisco de Paula/RS. O que mais me chocou não foi só a falta de acessibilidade, mas sim o que o magistrado disse para o cliente do advogado: “Por que tu não botou um outro advogado? Sabia que ia ser assim.”. Tocante isso, não? Quer dizer que não evoluímos nada ao longo desses anos? Quer dizer que a sociedade continua pensando pequeno em relação à causa das pessoas com deficiência? Quer dizer que nós, porque temos uma deficiência, devemos ficar em casa, sem estudar ou trabalhar porque, aparentemente, a sociedade acha mais fácil e prático nos excluir do que investir em acessibilidade para que todos, sem exceção, possam ser livres para viver e executar as suas atividades com plenitude? Eita sociedade caduca! Será que esse quadro um dia vai mudar? Ou a nossa luta se resumirá a dar murro em ponta de faca? Oh, não! God não permita!
Bem, bem, depois do momento desabafo, porque não, eu não consigo falar acerca de deficiência sem “soltar os cachorros”, nem que seja só um pouquinho. Eu tento não me estressar com todos os absurdos que eu vejo envolvendo a pessoa com deficiência, mas é impossível, já que não me estressar seria aceitar e me acomodar em relação ao descaso e a falta de respeito que nós, deficientes, encaramos todos os dias. No entanto, em contrapartida, há uma gente linda e boa que luta todos os dias para que deficientes sejam vistos como verdadeiramente são: humanos. Gente bela que mostra por meio de poesia, literatura e arte que todos somos diferentes, mas que as nossas diferenças podem conviver lado a lado e, juntas, formarem uma bonita diversidade.
Eu vi uma animação linda-de-viver chamada “Por que Heloísa?”Segundo as minhas pesquisas, a animação é a continuação de um livro homônimo, escrito por Cristiana Soares. O roteiro é de Cristiana e Carolina Ziskind e as ilustrações são de Ari Nicolosi. O curta é uma realização em parceria entre Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo e a TV Cultura. Se quiser saber mais, é só clicar aqui e conhecer melhor esse trabalho.



É um curta com uma dose de poesia que diz mais ou menos o seguinte: “Olha, as pessoas com deficiência não são de outro mundo. Você não precisa ter medo delas. Você precisa conhecê-las e, junto com elas, lutar para que cada vez mais todos tenhamos o direito de ser quem somos, fazer o que nos apraz e andar por onde quisermos andar, seja com as pernas, com próteses ou sobre rodas.”. E essa é a mensagem que eu queria deixar aqui hoje. Espero que você, leitor, assista essa animação, absorva os seus ensinamentos e possa praticar no seu dia-a-dia. O mundo só mudará se mudarmos a nós mesmos primeiro.

Eis a animação:



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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

15/12/13

Super(ação). Superação. Super(ar). Superar sempre.


Hoje faz exatamente uma semana que cheguei de uma fantástica competição de natação, que aconteceu na capital do Ceará: o V Meeting Cearense de Natação Paralímpica

Como vocês sabem (se não souberem, saberão agora), eu sou nadadora paralímpica, mas há um ano e meio que não participava de competições. A razão? Ela, a minha perseguidora: a Síndrome do Pânico. Não sei se vocês se lembram, mas o final de ano de 2012 foi terrível pra mim. Não só o final do ano de 2012, como também cerca de 50% do primeiro semestre de 2013. Passava mal quase todos os dias, com uma ansiedade desenfreada, uma agonia constante. Era como se eu estivesse morrendo aos poucos todos os dias. Até conseguir encontrar a medicação certa, eu penei, amigos. Sofri um bocado. Ter Síndrome do Pânico é uma das piores coisas que há nessa terra. É tão ruim, tão horrível, que quem tem, não deseja isso nem pra um inimigo. 
Dada essa introdução, quero agora só falar das coisas boas que me aconteceram depois que a minha vida começou a entrar nos eixos. 
O primeiro semestre do curso de Biblioteconomia na UFAL foi um tanto apertado, corrido, mas muito produtivo. Mesmo com a minha ansiedade um tanto descontrolada, consegui curtir bem o level 1 do curso. Foi ainda no primeiro semestre que uma professora indicou meu nome a um projeto de iniciação científica. Aceitei o convite, claro. Ser aprendiz de pesquisadora é algo que demanda tempo e esforço, mas que está me fazendo crescer imensamente como acadêmica.
Negligenciei bastante os treinos de natação nesse ano. No início, não era negligência: era medo de passar mal enquanto fazia esforço físico nos treinos (meados de fevereiro/março, quando voltei a nadar pensando em competições), mas depois comecei a negligenciar porque me enrolei com alguns trabalhos na UFAL e acabava faltando muitos treinos. O que aconteceu foi que eu construía coisas massas como atleta, mas, quando começava a faltar por uma razão ou outra, a construção desmoronava. Afinal, um atleta que quer render, ele precisa ter assiduidade, pois, do contrário, será um eterno construir e desconstruir, sem chegar a lugar nenhum. Analisando toda a situação agora, percebo que tudo foi uma questão de falta de planejamento de minha parte. Aprendi a lição e, a partir dessa nova fase, que se inicia amanhã, saberei conciliar tudo o que eu faço, sem abrir mão de nada.
Fui a esse Meeting em Fortaleza consciente de que não poderia esperar boas marcas nas provas que eu iria nadar (nove provas... eram dez no total, só fiquei de fora dos 100m borboleta). Eu tinha consciência de que eu não poderia esperar, mas, no fundo, a gente sempre espera que na hora, por um milagre ou uma grande cagada (desculpa a expressão), consigamos nadar bem e fazer marcas legais. Não foi o que aconteceu.  Um atleta de verdade não espera: ele faz. Mais uma lição que aprendi (ou reaprendi).
Entretanto, por mais incrível que pareça, não fiquei triste. Ao contrário, nadei nove provas e em nenhum momento passei mal com ansiedade excessiva. Tinha como ficar triste? 
Eu estava muito nervosa apenas na primeira prova, mas era uma ansiedade normal. Eu não senti nenhum vestígio da Síndrome do Pânico. Isso, pra mim, foi a minha grande vitória. Conseguir nadar todas as provas, inclusive umas que nadei pela primeira vez, foi algo, assim, impagável. Saí da competição feliz demais por ter vencido a minha maior adversária dos últimos tempos: a Síndrome do Pânico. 
Mesmo não nadando bem, aumentando as marcas de algumas provas, consegui medalhar em oito das nove provas que nadei. Foram três ouros, três pratas e dois bronzes. 
Aprendi muito também na pré-competição, competição e pós-competição com a minha equipe. Nós quase não conseguíamos viajar a Fortaleza. Lançamos campanha nas redes sociais, pedimos auxílio financeiro a professores e alunos da Estácio/FAL e da Biblioteconomia/UFAL e, para a alegria da equipe e de nossos admiradores, alcançamos a meta que queríamos (R$ 4 000), para transporte, auxílio hospedagem e alimentação).
Sou um tanto cara de pau, tanto, que mandei o link da campanha ao ator e humorista Fábio Porchat. Ele compartilhou duas vezes a campanha, abraçou a causa e ficou na torcida. Duas empresas chegaram a mim através dos compartilhamentos dele. Empresas que nos deram um apoio muito massa: IlhaSoft (Maceió/AL) e B&S Soluções em Limpeza (Aratiba/RS). Foram parceiros, realmente. Contribuíram com o máximo que puderam, mas, sobretudo, nos disseram palavras de incentivo e ficaram na torcida. Isso não tem preço. As deputadas Rosinha da ADEFAL e Thaise Guedes apoiaram a nossa causa e nos ajudaram a transformar o nosso sonho em realidade. 

Na foto, Natação ADEFAL e dois amigos queridos da equipe: o carinha de camisa preta, Alisson Ampolini, do Mato Grosso, e a queridona de camiseta branca com gola verde, Natália, de Sergipe.

Nós fomos ao Ceará com uma equipe maravilhosa e um objetivo ousado, mas possível: levar a natação ADEFAL ao pódio. Queríamos ganhar algo que nunca tínhamos ganhado ainda: um prêmio por equipes. E nesse Meeting conseguimos. Ganhamos a terceira colocação por equipes (entre treze equipes). Trouxemos um lindo troféu para Maceió, fruto do nosso esforço, do nosso suor, da nossa garra e da nossa fé.
O grupo estava muito unido, passando energia positiva, um apoiando o outro de uma maneira que eu nunca tinha visto antes. Fico toda arrepiada só de escrever sobre isso.

Na montagem, 1ª foto: parte da equipe Natação ADEFAL. 2ª Erica Ferro, linda, com suas oito medalhas. 3ª foto de todas as medalhas conquistadas pela equipe e do troféu de terceiro lugar por equipes.

Porchat, além de ter compartilhado a campanha por duas vezes, parabenizou a equipe por todo o esforço e dedicação. Cliquem aqui pra ler as belas palavras dele.
Escrevi vários posts sobre essa competição no Facebook, mas há dois que preciso incorporar nesse post aqui. Isso deixará esse texto ainda maior, mas não me importo. Sei que, se vocês estão aqui por livre e espontânea vontade, vão gostar de ler o que escrevi. Ou não. Mas enfim, não posso deixar esse dois textos de fora desse meu post aqui, no meu querido blog.

A primeira facebookada foi dia 06/12, um dia antes da competição:

Nunca me senti tão feliz como hoje. Aliás, desde que saí de Maceió, que estou me sentindo extremamente orgulhosa da minha equipe, de cada atleta que está aqui.

Eu já tinha chorado de alegria na quarta pelo fato de termos unido nossas forças, junto com o apoio fabuloso de vocês, amigos queridos e todo mundo que apoiou, e conseguir recursos financeiros para viajarmos para Fortaleza.
Foi uma campanha maravilhosa. Espalhamos pelo Facebook, na Estácio/FAL, na Biblioteconomia/UFAL e em todos os lugares que conseguimos. Estava escrito que nos conseguiríamos vir a Fortaleza. A meta era muito ousada, considerada impossível por muitos, mas nós, atletas e, puxa vida, o nosso amado técnico Diego Calado fez de tudo, mas tudo mesmo pra que estivéssemos aqui.
Há pouco tivemos uma reunião espetacular com Diego e toda equipe. Uma reunião com o intuito de conversarmos um pouco dos percalços por quais passamos pra chegar até aqui e também para vermos um vídeo sensacional que um grupo de alunos do curso de Educação Física da Estácio/FAL fez sobre a nossa equipe. Um vídeo motivacional. Um vídeo inspirador.
Na minha teima de querer ser vista como mais uma, como uma "pessoa normal", me irritava um pouco por dizerem que eu era/sou um exemplo de vida.
Todos temos limites a superar, mas, cara, hoje eu chorei demais na reunião com o vídeo que os estudantes da Estácio/FAL fizeram. Foi lindo.
A mensagem do vídeo, em síntese, mostrou a mim e aos meus amigos de equipe que nós somos exemplo de vida sim e não devemos nos irritar por causa disso.
Nós quebramos paradigmas, nós transformamos o quase impossível em possível. Nós chocamos as pessoas, no bom sentido da palavra. Nós somos exemplos de que a vida pode dar certo quando lutamos para que ela dê certo. Somos lições de vida para quem vive reclamando da vida, mas não se move pra mudá-la.
Nós, da equipe de natação ADEFAL não treinamos apenas para sermos os melhores atletas do país e/ou do mundo. Na verdade, o esporte nos faz seres humanos melhores, não apenas atletas melhores.
E quando as pessoas (com ou sem deficiência) observam nossas ações na vida e no esporte, elas se emocionam.
E hoje eu me coloquei no lugar de uma pessoa sem deficiência e me senti tão feliz pela Ericona. Hoje posso dizer que sou feliz por ser do jeito que sou, feliz por ser motivo de inspiração pra muita gente, por poder mostrar uma outra visão de mundo, por sacudir uma vida aqui e acolá e dar um novo sentido a ela por algo que eu disse ou que esse vivente me viu fazendo.
Eu chorei muito nessa reunião, muito mesmo. De felicidade, de sentimento de plenitude, de superação dos meus medos, dos meus traumas. Medo de ser excluída pela sociedade por ter um rosto esquisito segundo os padrões de beleza que a sociedade conhece, uma face paralisada, pela minha má dicção devido a paralisia facial.
Hoje, através do esporte e das vivências que tive, sou uma pessoa muito mais desinibida, muito mais destemida.
Hoje eu converso com qualquer pessoa normalmente, sem me sentir tensa, com medo de que a pessoa não entenda o que eu falo. Eu me aceito mais.
É assim que eu sou? Então beleza, vamos viver, mas vamos viver mesmo, com toda a nossa forçaa, com todo o nosso vigor. Porque, caramba, a vida é só uma. É aqui e agora.
Amanhã será a competição. Um dia de competição, duas etapas. Pela manhã, começa às 8h30. À tarde, começa às 15h30.
O que tenho a dizer mais? Que eu amo a natação, que eu amo o que eu faço, que eu me amarro em nadar, adoro essa emoção maravilhosa de competição.
Mas há algo mais que eu preciso dizer: DIEGO CALADO, NÓS, EQUIPE DE NATAÇÃO DA ADEFAL, AMAMOS MUITO, MUITO MESMO VOCÊ!
Falo por todos, mas acrescentando mais do que eu sinto por você. Te vejo como um pai, cara. Um pai suuuper novo, né? Tem idade pra ser meu irmão mais velho, mas eu te vejo como pai pelo teu amor a equipe, pela tua dedicação incondicional, por ser essa pessoa maravilhosa e um ser humano singular, admirável pelo que é, mas, sobretudo, pelo que faz. Muito obrigada por fazer parte da minha vida. Você é parte essencial dela. Eu amo MUITO você.
Todo o esforço que você fez, faz, está fazendo e fará pela natação paralímpica e pelo esporte paralímpico em geral um dia será reconhecido da maneira que se deve. Porém, cara, o mais lindo reconhecimento você já tem: o nosso.
Não foi à toa que a equipe toda chorou quando você, todo emocionado, disse: "Cara, isso aqui é a minha vida...", em um momento da reunião. Nós somos parte fundamental da sua vida e você, da nossa.
Okay, escrevi demais.
Só queria dizer que eu estou imensamente feliz de estar aqui com meus queridos companheiros de piscina e o Diegão, o técnico mais sensacional que há.
E AMANHÃ VAMOS COM TUUUUDO! TUDO e mais um pouco!
Nadaremos com forca, faremos nosso melhor! E é isso que importa.
ORGULHO DE SER ATLETA PARALÍMPICA! ORGULHO DE TER DIEGO CALADO COMO TÉCNICO!
Fiquem na torcida!
VAMOOOOOOOOOOOOOOOO, NATAÇÃO ADEFAL!

A segunda facebookada foi publicada no dia 10/12:

O sorrisão mais sincero do mundo inteiro é esse daí.

Fico revendo as fotos do V Meeting Cearense de Natação Paralímpica e meu coração se enche de alegria, de contentamento, de plenitude, de um sentimento de total realização.
O V Meeting Cearense de Natação Paralímpica não foi "apenas mais uma competição". Foi "a competição", pelo menos pra mim. Foi "a prova dos nove".
Passei maus bocados no final de 2012 até mais ou menos metade de 2013. Passei vários meses sem treinar acorrentada pela Síndrome do Pânico, que me fazia sentir coisas terríveis, verdadeiras amostras grátis da morte. Foram tempos de tempestade.
Porém, então veio o sol. Depois do meio do ano, as coisas foram se encaixando, o tratamento para ansiedade fazendo efeito e eu vi a minha vida voltar ao normal. Comecei, aos poucos, a pensar em alto rendimento, pensando em competições novamente. E voltei a treinar. Entretanto, eu era mais de palavras do que ações. Não tem por que ocultar que, por falta de planejamento de minha parte, não finalizo o ano com tempos considerados bacanas para quem - por enquanto, espero - se enquadra na classe s9.
Eu sabia que nessa competição a minha maior meta era conseguir concluir as nove provas nas quais me inscrevi. Não eram tempos. Não poderia me cobrar, já que não tinha dado meus cem por cento em treinos. E cumpri minha missão. Concluí minhas provas.
Fiquei MUITO nervosa nos 50m livre (primeira prova da competição), muito mesmo, mas não a ponto de me dar um treco e uma vontade de sair correndo. Ansiedade normal, mesmo. À medida que ia nadando minhas provas, ia relaxando. Na minha prova final (200m medley), estava tranquila. Consegui fazer meu nado do melhor modo que eu pude. Saí feliz da vida da piscina.
Posso cantar, a plenos pulmões, essa canção: "Ei, medo! Eu não te escuto mais. Você não me leva a nada... ".
Que a vida continue assim: leve, bonita, florida e doce. Alguns espinhos aparecem, mas agora já tenho força pra passar por eles sem me deixar abalar.
Diego, você é demais! Obrigada por estar sempre comigo no período em que estive afastada da natação. Obrigada pelo apoio incondicional.
Neusvaldo Wanderley, você também colaborou para que eu buscasse forças e continuasse a nadar. Muito obrigada, meu amigo.
E VAMO QUE VAMO! Porque eu voltei, e agora é pra ficar!
Em Fortaleza, revi pessoas que admiro na natação paralímpica, conheci outras pessoas igualmente admiráveis. Todos me receberam tão bem, me deram boas-vindas de uma maneira tão linda. Senti-me imensamente acolhida por cearenses, baianos, paulistas e mato-grossense (sim, no singular, porque de mato-grossense só tinha o Alisson Ampolini ~risos~).
Enfim, esse Meeting foi especial demais pra mim, foi um recomeço.
Obrigada, Fortaleza! Foi lindo!

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Logo mais volto com os meus posts tresloucados, meus contos mal contados, meus poemas tortos e meus comentários supersinceros sobre os livros que li e os filmes que vi.
Aguardem-me, porque não demoro a voltar aqui.
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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

19/10/13

Filme: Intocáveis



Título: Intouchables (Original) / Intocáveis (Brasil)
Ano de produção: 2011
Direção: Eric Toledano Olivier Nakache
Estreia: 31 de Agosto de 2012 (Brasil)
Duração: 112 minutos
Classificação:Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero: Biografia, Comédia e Drama
País de origem: França
Sinopse: Philippe, um refinado multimilionário tetraplégico francês, precisa de um auxiliar de enfermagem para o auxiliar nas suas atividades rotineiras.
O contratado é Driss, um senegalês que vive nos subúrbios de Paris, que acaba de cumprir uma pena de seis meses de prisão e que não tem qualquer formação para o cargo.


Sério, pessoas, digam-me se eu estiver errada ou doida: sábado é um dia preguiçoso e por si só pede que fiquemos quietos num canto, assistindo a um bom filme/série, não é? E hoje foi assim. Baixei séries, assisti séries e, no começo da noite, resolvi assistir a esse filme, que, pela sinopse e os comentários, me ganhou desde o primeiro momento em que eu tive ciência da existência dele.
Vejam bem, sem muitos rodeios, direi logo, assim, de cara, o seguinte: Intocáveis é um filme espetacular e eu quero muito que vocês assistam e me contem o que acharam dele. Na minha concepção, é meio que impossível não gostar desse filme. De coração, é impossível não se ver cativando por Philippe e Driss ao longo das cenas.
Como a sinopse diz, Philippe é um cara rico, muito rico, realmente riquíssimo, que, depois de um "acidente" (assistam e entendam o porquê do uso das aspas), ficou tetraplégico. Philippe era um homem muito difícil de lidar no que tange ao humor. Em termos populares, ele tinha um amor dos diabos. Um cuidador não passava duas semanas com ele, porque não aguentava os seus acessos depressivos e revoltados. Porém, eis que, numa das entrevistas em busca de um novo cuidador, ele conhece Driss. Ele não poderia ter feito melhor. Ter escolhido Driss, a despeito da sua falta de experiência como cuidador, do jeitão todo peculiar do senegalês (sem papas na língua, espontâneo ao extremo, doido, doidão e simplesmente encantador...), foi uma das coisas mais sensatas que Philippe fez nos últimos tempos. 
Mas enfim...  Eu não quero contar muito do enredo, porque acho que o ideal é cada um assistir e sentir o filme de uma maneira toda ímpar, toda única.
Contudo, preciso lhes contar, de maneira um tanto mais extensa, o que achei do enredo, dos personagens etc.
Sobre o enredo: impecável. Se é um filme que aborda um tema dramático? Sim, é, mas isso é colocado no filme de forma tão sutil, que não deixa o filme carregado de emoções dramáticas. Pelo contrário, em Intocáveis, a comédia toma conta e o drama fica ali, de escanteio, aparecendo só de vez em quando e com muito menos intensidade que a comédia.
Philippe e Driss, após se conheceram, ampliaram a visão que tinham sobre a vida, sobre o viver, sobre a amizade, sobre o amor. Philippe mostrou a Driss um outro mundo, um tanto meio diferente do dele, com um tanto mais de requinte e luxo, mas que também tinha seu valor e seu encanto. Já Driss reapresentou Philippe a vida. Driss impulsionou Philippe a ter coragem de viver, apesar dos seus traumas, das suas dores, dos seus resguardos. Driss e Philippe reaprenderam a viver, ambos à sua maneira, adicionando distintas experiências em suas bagagens de vida, mas igualmente especiais e louváveis.  
É um filme sobre amor. Sim, sobre amor. Amor romântico, amor fraterno. Amor, em sua imensidão e perfeição.
É um filme para chorar de tanto rir. 
A vida é divertida, essa é a lição. Ela só espera que nós saibamos aproveitar o melhor dela. E ao lado de amigos, claro, porque amigos dividem dores, multiplicam risos, maximizam alegrias, colorem a vida. Do nosso modo, do modo que pudermos, mas que a aproveitemos. De preferência, ininterruptamente. 
O que importa, o que verdadeiramente importa hoje, amanhã e sempre é viver. Viver. V.i.v.e.r.
Vivamos, pois!

Trailer:



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Depois de assistir, fui pesquisar sobre o filme. O que descobri:
• Intocáveis é baseado em fatos reais (isso é informado logo no início do filme), mais especificamente na autobiografia - "Le Second souffle" - de Philippe Pozzo di Borgo (essa foi a minha descoberta);
• Em Portugal, o título do filme é "Amigos Improváveis". Um título interessante, de fato;
• Foi o filme mais assistido na França em 2011 e o mais lucrativo de toda a história do cinema francês;
• Philippe Pozzo, com a venda dos direitos autorais de seu livro para adaptar sua história ao cinema, arrecadou cerca de US$ 650 mil, e doou toda essa quantia a uma associação que auxiliam deficientes físicos (não foi especificado a localidade da associação, mas creio que seja na França);
• Todas essas informações foram colhidas na Wikipédia (link aqui), por isso não posso confirmá-las. Se tudo for verdade, puxa vida!, que bacana.
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Notinha de sempre: Nem demorei a aparecer, concordam? Okay, demorei um pouco. Nem direi que volto logo, mesmo que essa seja a pretensão. Melhor contar com os imprevistos do que com as certezas, certo? Mesmo porque qual certeza temos nós, meros mortais? De que morreremos, apenas.
Portanto, tratemos de viver na máááxima potência.
(...)
Pedido de sempre: deem um like na fan page do blog e sigam no Twitter, fechado?
(...)
Um abraço da @ericona.

02/08/13

Filme: A cor do paraíso


Título original: Rang-e khoda
Título no Brasil: A cor do paraíso
País: Irã
Ano: 1999
Roteiro e direção: Majid Majidi
Gênero: Drama
Sinopse: Mohammad é um jovem estudante de oito anos que freqüenta uma escola para cegos em Teerã. Sua impossibilidade de ver o mundo reforça mais ainda sua habilidade em sentir suas poderosas forças. Depois de um ano, ele volta à sua terra natal, um vilarejo no norte montanhoso do Irã, junto com seu pai, um carvoeiro viúvo.




Tenho uma mania de baixar filmes e procrastinar pra assisti-los. Quer dizer, quando a conexão está boa, consigo alimentar essa mania, é claro. O negócio é que não sei bem há quanto tempo baixei A cor do paraíso, mas faz um bocadinho de tempo. Não lembro como o descobri, mas creio que fui numa das minhas andanças pelo YouTube à procura de filmes bacanas. Sei que eu procrastinei pra assistir porque (a) sou uma procrastinadora de marca maior com absolutamente tudo; (b) infelizmente, quando descobri o filme, também descobri, sem querer querendo, o final. E, por saber do final, que não foi um final que eu desejaria ver, demorei muito pra tomar coragem e assistir o filme. Por favor, não leiam a página da Wikipédia sobre filme, porque foi lá que, infelizmente, soube do filme todo.
Hoje, sabe-se lá por que, resolvi, finalmente, ver o filme. Talvez porque eu estava, e ainda estou, moribunda, um tanto triste, e ainda por cima está chovendo. Chuva combina com esse filme. 
E, apesar de eu ter começado a assistir sabendo praticamente tudo do filme, ter visto as cenas foi algo impagável. É um filme forte, que dá socos na cara do espectador, que aponta uma realidade que aconteceu pelo mundo todo, e talvez ainda aconteça. E eu fico furiosa e extremamente triste em saber que acontecem coisas como aconteceram na vida do personagem mais doce e lindo que já vi em filmes. Sim, o Mohammad é esse personagem. O menino cego, órfão de mãe, que passou uns tempos num colégio para meninos com a mesma deficiência dele e que saiu de lá um menino muito esperto, inteligentíssimo, com uma capacidade de fazer coisas fabulosas, grandiosas e louváveis, caso dessem oportunidade a ele.
Mohammad é uma criança doce, pura, com um coração tão lindo. Não enxerga com os olhos, mas suas mãos auxiliam-no na descoberta do mundo. Fiquei encantada e senti cócegas no coração ao ver as cenas em que ele anda pelas plantações de diferentes plantas, flores e alimentos. O sorriso dele, a satisfação a cada coisa nova que ele aprendia/descobria foram coisas que me deixaram tão tocadas. 


Não sei se soará como spoiler, mas lá vai: uma pena que o pai de Mohammad não o via assim: capaz, inteligentíssimo e um doce de menino. O pai sentia vergonha, simples e cruel assim. Via-o como um estorvo e passou o tempo todo tentando se livrar do menino.
Definitivamente, ele não era como sua mãe, a avó de Mohammad, ou como as irmãs de Mohammad, que o amavam incondicionalmente e o tratavam como o ser humano que ele era.


A cor do paraíso desperta amor, desperta raiva, até mesmo ódio, desperta um tristeza profunda, dentre tantos outros sentimentos. Tudo isso porque é um filme forte, que retrata algo que aconteceu bastante, em todas as partes do mundo, e que, como disse anteriormente, ainda deve acontecer em algumas partes ermas do mundo (ou nem tão ermas assim). O que é uma pena, o que me irrita enormemente, o que me faz querer girar o mundo professando as verdades que acho que devem ser escutadas por todos. Que pessoas com deficiência não precisam de pena, de esconderijo, de palmadinhas nas costas. Que pessoas com deficiência precisam mesmo é de oportunidades de desenvolver as suas habilidades e viverem de forma plena, dentro do que elas são capazes de fazer, porque podem fazer muito. Muito mesmo.


Só em pensar que existiram vários Mohammads, meu peito se enche de dor. Um mundo cheio de pessoas preconceituosas é injusto, ceifa vidas, assassina futuros que poderiam ser tão brilhantes e belos. 
Olha, apesar de ser um filme forte, que causa revolta, dor, ódio, tristeza, penso que deve ser visto por todas as pessoas. Pessoas de coração duro e com conceitos errôneos correlativos à pessoas com deficiência, poderão repensar tais conceitos e, se conseguirem captar a essência do filme, coisa extremamente fácil de ser feita, descartarão esses conceitos e os trocarão por conceitos louváveis e dignos. Pessoas de coração bom e que já tem uma visão esclarecida sobre pessoas com deficiência, terão a visão ainda mais ampliada sobre esse mundo, se indignarão com o pai de Mohammad, amarão a avó e as irmãs de Mohammad, se apaixonarão e nunca esquecerão do menino que não podia não enxergar com os olhos físicos, mas via tudo, até mais do que os que podiam enxergar com os olhos físicos, pois ele via com olhos espirituais, olhos do coração.


Sim, agora estou chorando, tanto pela gripe, que sempre me deixa assim, como pela emoção de falar sobre esse filme, que é imensamente marcante. Marcou a minha vida, ficou gravado na minha mente, sem dúvidas.
Assistam, por favor. Assistam e me digam o que acharam, o que sentiram, etc.

Trailer:



Há o filme completo no YouTube (inclusive, eu baixei o filme por lá). Eis, então, o filme completo:


*Sinopse extraída do Filmow.
**Imagens extraídas do Google.

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