11 abril 2016

Resenha: Todo Dia - David Levithan


Todo Dia
David Levithan
Editora Galera Record
280 páginas

☺☺☺☺

Sinopse: Neste novo romance, David Levithan leva a criatividade a outro patamar. Seu protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.

Todo Dia tem uma premissa, no mínimo, curiosa. Já faz algum tempo que venho lendo resenhas positivas acerca dessa obra de David Levithan, mas, por uma razão ou outra, só me veio a real vontade de ler agora. Tenho uma porção de livros não lidos e quero doar cerca de 70% deles. A maioria é de parceria e há uma porcentagem ótima de obras bem bacanas, mas que não me desperta mais tanto interesse quanto antes. Como não há mais espaço na minha estante e eu quero muito adquirir uma porção de livros nos próximos meses que condiz muito mais com a minha atual fase de leitora, preciso liberar lugares no meu cantinho de livros.
E o dilema se deu. Depois que acabei de ler Garota Exemplar, fiquei perdida em meio a tantos livros físicos e alguns virtuais do meu acervo. Passei por uns momentos de "E aí, o que ler agora?". E, plim!, comecei a ler Todo Dia no Kindle que veio instalado no meu notebook (a Amazon me ofereceu trinta dias grátis, coisa que aceitei de bom grado). É o primeiro livro que leio de David. E, à medida que lia, fui sendo, gradativamente, enredada pela trama, pelo protagonista chamado, simplesmente, de A e por sua incomum forma de viver e existir.
Quando disse anteriormente que esse livro tem uma proposta no mínimo curiosa, me referi exatamente ao protagonista que David Levithan criou. Ele é um adolescente de 16 anos, mas ele não tem gênero definido. Eu estou me referindo a ele no sentido de ser e não de rapaz. Na tradução da Galera Record, A é tratado como ele, mas desconfio de que seja porque não há, em português, um pronome neutro equivalente ao it do inglês.
A acorda todos os dias no corpo de um adolescente diferente, mas sempre da sua idade. De início, achei estranho. É como se por um dia o dono do corpo ficasse "sem controle" de si mesmo, pois A está o hospedando por 24hrs. Não há explicações claras por que isso acontece, o protagonista não sabe nos dizer. A tenta interferir o mínimo possível na vida de cada adolescente cujo corpo hospeda a cada dia. De uma maneira misteriosa, ele tem acesso ao cérebro, contendo informações e memórias do dono do corpo; sendo assim, ele consegue agir do modo mais natural possível, sem despertar muitas suspeitas de familiares e amigos desses adolescentes.
Há uns dias em que A acorda num corpo de uma menina, em outros, num de menino. Essas meninas e meninos podem ser magros, gordos, baixos, altos, viciados em drogas, deprimidos, fúteis etc. Ainda que ele não possa mudar essas pessoas, porque não é seu direito, nem daria tempo de fazer isso em 24hrs, A tenta fazer com que o dia termine bem e que a pessoa cujo corpo ele "morou por um dia" tenha boas sensações a respeito do dia em que ela passou "fora do ar" sem saber.
As coisas passam a mudar dentro de e para A quando ele acorda no corpo de Justin, um garoto de personalidade duvidosa, sem tato no trato com os outros, com características morais deploráveis e irritantes, mas que namora uma moça muito legal chamada Rhiannon. A, um ser doce e agradável, se encanta pela moça e a proporciona um aprazível dia. Rhiannon estranha bastante o jeito do namorado, que, costumeiramente é um brutamontes, contudo resolve se entregar ao momento mágico e se apega ao que de bom o dia pode oferecer. É, então, que começa toda a saga de A para encontrar Rhiannon todos os dias, estando ele sempre em um corpo e local diferentes, bem como para revelar a ela o seu raro modo de vida.
Todo Dia se enquadra no gênero literário Jovens Adultos (Young Adults), gênero que não costumo ler com frequência, mas que, em geral, tenho a sorte de ler ótimas obras quando resolvo me aventurar por ele. Esse, em especial, me ganhou sem muito esforço. David Levithan escreve de uma forma fluida, gostosa e bonita. Nesse livro, ele aborda temas pertinentes, e, em sua maioria, procura prezar pelo respeito ao próximo, seja esse próximo como for. David é conhecido por retratar, em suas obras, questões muito importantes concernentes a comunidade LGBT. Não foi diferente em Todo Dia.
Além de delinear muitíssimo bem a homossexualidade, percebi problematizações essenciais, embora nas entrelinhas, no que se refere a identidade de gênero nesse livro, especialmente ao gênero líquido/fluído. O que achei sensacional da parte de Levithan, porque é algo que não vejo sendo abordado em livros, filmes etc. Ruby Rose, uma das detentas em Litchfield, do seriado Orange Is the New Black, se denomina como gênero fluído. Ela, junto com a sua então namorada Phoebe Dahl (neta do escritor Roald Dahl, que deu vida a Matilda), produziu um curta interessante sobre o tema. Vale assistir, pois parece ilustrar bem o que sente uma pessoa com essa identidade de gênero.
Por fim, quero dizer que A ganhou o meu coração, e o jeito com o qual descreveu o amor e ao ato de amar foi poético, tocante e emocionante. Minhas queixas com Levithan, e espero não dar nenhum grande spoiler aqui, se devem apenas aos fatos de ele ter retratado a obesidade de uma maneira pouco respeitosa, e que eu diria até, em certa medida, discriminatória. Fiquei um pouco chocada com essa parte, porque em todo o livro se vê uma preocupação enorme com o respeito e a dignidade ao ser humano e suas características/particularidades, então não entendi o porquê de Levithan ter tratado esse tema da forma como o tratou: desprovido de respeito e empatia. O segundo e último fato foi ter deixado em aberto algumas perguntas que ajudariam o leitor a entender a origem e o modo de vida de A, sobretudo em relação ao desfecho meio abrupto. Pelo que pesquisei, não há sequência para o livro, o que é uma pena, visto que não vou obter as respostas desejadas. Na verdade, será lançado, acredito que em breve, Another Day, que é a mesma estória, mas, dessa vez, sob a ótica de Rhiannon. Dei uma olhada nos comentários feitos nesse livro postados no goodreads e, pelo pouco que sei de inglês, os leitores ficaram um pouco decepcionados porque essa obra não se trata de uma continuação, assim parece que esse livro traz nada de novo ou revelador.
Ainda assim, com essas minhas ressalvas que não pude deixar de fazer, recomendo Todo Dia a todos que gostam de um bom romance. É uma trama que nos ganha pela premissa inovadora e pela fluidez como o enredo é desenvolvido. Quatro smiles para Todo Dia, de David Levithan!

Erica Ferro

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28 comentários:

  1. Olá, Erica! Tudo bem?
    Já li, Todo Dia e o que posso dizer é que amo esse livro. Concordo em alguns pontos contigo. Para mim é um livro único e que me fez passar alguns dias refletindo sobre tantas coisas.

    Uma ótima semana. Até mais! http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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  2. Eu amo tanto esse livro! Gostei tanto disso do A ser uma pessoa diferente a cada dia. O autor mostrou que o amor não fica no corpo, mas na alma. Realmente tem alguns pontos que deixam a desejar, mas no geral a história é daquelas que nos fazem refletir.

    Beijos
    Jana Teixeira - Aquela Borralheira

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    1. Exatamente! Nós nos apaixonamos (ou deveríamos nos apaixonar) pelo que está por dentro, pela alma da pessoa, não pelo corpo, pelo invólucro.

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  3. Oie,
    já ouvi falar muito deste livro, mas confesso que ele nunca me chamou atenção.

    bjos
    http://blog.vanessasueroz.com.br

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    1. Acho que você deveria dar uma chance a ele. ;)

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  4. Olá, Erica.
    E amei esse livro. Foi o único que li do autor até agora, mas me considero fã. Eu achei incrível a forma como ele abordou o tema amar o que está por dentro, porque é isso que acontece, já que cada dia ele/a está em corpo diferente. Foi um livro que eu não dava nada por ele e se tornou favorito.

    Blog Prefácio

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    1. Sim, sim. Isso mesmo: a gente alma a alma. O corpo pouco importa (ou pouco deveria importar).

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  5. Exatamente pela parte discriminatória, vamos chamar assim, que eu fiquei com uma imagem negativa do livro. Você resenha muito bem, Erica. Beijinhos.

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    1. Poxa, cara. Nem me fale. Acho que foi por isso que não consegui favoritar o livro :'(. Obrigada pelo elogio, poetisa. ;)

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  6. Parece ser um romance bem interessante, principalmente por causa da abordagem de temos mais complexos, como a identidade de gênero. Isso, sem dúvidas, contribui para que eu tenha interesse na obra.
    Ótima resenha.

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de abril. Serão três vencedores!

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    1. Leia, Marcos. Acho que você vai gostar. ;)

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  7. Oi, Erica! Tudo bem? A premissa de Todo Dia é realmente ótima! Também quero que A ganhe meu coração. Tenho o livro aqui e espero lê-lo logo. Adorei a resenha! :)

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  8. Oi Erica,
    Também estou assim que nem você precisando liberar espaço na estante, na verdade em boa parte do quarto. Aprendi a me desapegar melhor dos livros, sempre penso naquele que gostaria de reler...mesmo sendo leitura cinco estrelas. O problema é que quase ninguém aqui, onde moro, tem hábito de leitura - pelo menos os que conheço - então já viu haha

    Esse livro tem uma proposta interessante, estou doida para ler, pois não há como ficar curiosa para saber como o autor finalizou...Huum e se tiver adaptação quero Ruby de protagonista kkkkkkkk

    P.S.: Obrigada pelo apoio lá na postagem. Eu espero que a pessoa esteja no 'devido lugar' agora, sem importunar haha

    Obrigada ♥
    beijos
    Nana - Obsession Valley

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    1. Siiiiiiiiiiiiim, Ruby de protagonista! <3 Beijo, gata.

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  9. Oi, Erica!
    Adorei sua resenha, super completa!
    Estou lendo Todo Dia agora e estou amando. Acho que entendo que o autor mostra de maneira poética - o que é lindo - basicamente que o amor não é para todos, independente de cor, raça, gênero. Pessoas se apaixona, por pessoas. E sei que posso mudar minha visão ou descobrir mais coisas à medida que for lendo. Estou na página 104 e a escrita do Levithan é ótima mesmo.

    Bjão.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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  10. Ótima resenha! Esse livro parece ter realmente uma história encantadora e bastante profunda, parece ser bem diferente de tudo que já li! Acho que vou colocar ele na minha lista de livros a ler!

    ps: não sei se você lembra do meu blog, era o "strawberry de livros e filmes" mas agora o nome mudou para "pitada de cinema e leitura" e eu voltei com novidades nesse novo blog! Conto com a sua visita! E espero que goste! :)

    Jéssica Patrício - pitadadecinemaeleitura.blogspot.com

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    1. Sim, coloque! É um bom livro. Pode deixar, vou te fazer uma visita no seu novo cantinho.

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  11. Oi Erica!
    A história desse livro é bem interessante e diferente!
    Mas que pena que um autor tão ligado a temas "polêmicos", digamos assim, acabou sendo preconceituoso em sua obra.

    Obs: Tem sorteio novo no blog :)
    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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    1. Ai, Sora... Nem me fala, foi tão triste essa parte do livro. Fiquei bem decepcionada. :(

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  12. Oi Erica, tudo bem?
    Passando pra avisar que te indiquei numa TAG/prêmio lá no blog. ;)
    Beijos,

    Priscilla
    Infinitas Vidas

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  13. OIee Érica. Ás vezes é preciso mudar um pouco o gênero que estamos acostumados a ler, né? É bom sair da nossa zona de conforto. Eu acho que iria gosta desse livro...mas não é o momento para ler ele. renove sua estante! É uma maravilha.
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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    1. Quando for o momento, não deixe de ler. ;) Vou renovar sim, pode deixar. =)

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  14. Oi, Erica.

    Que resenha excelente, parabéns!
    Eu nunca tive vontade de ler Todo Dia justamente por achá-lo um livro um tanto quanto peculiar, mas sua ótima resenha despertou em mim uma curiosidade que eu nunca havia sentido.
    Me pareceu muito interessante esse/essa personagem híbrido(a).Depois vou dar uma olhada nesse curta que fala sobre o gênero fluido, confesso que não conheço nada a respeito.
    E quando quiser se desfazer de um livro é só falar comigo, eu aceito! hahaha

    Beijo
    - Tamires
    Blog Meu Epílogo | Instagram | Facebook

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    1. Ai, que lindo, que comentário maravilhoso. Fico muito feliz que a minha resenha tenha ficado tão instigante a ponto de te fazer querer ler "Todo Dia", como nunca antes. Leia, mesmo, você vai gostar.

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