24/01/16

24/01: Dia Mundial de Consciência Sobre a Síndrome de Moebius


No dia 18 de julho de 2015, fiz uma postagem muito importante aqui no blog - e muito emocionada também. Falei abertamente, como nunca havia falado antes, sobre a síndrome que tenho. A maioria já sabia que eu tinha algum tipo de deficiência, nunca escondi que não tenho a mão esquerda, o pé direito e paralisia facial. Entretanto, nunca havia contado o que ocasionou essa minha má formação congênita. Então, no fatídico 18 de julho, consegui superar todos os meus receios e postar sobre um assunto extremamente sério, mas, ao mesmo tempo, essencial, que deve ser divulgado, para que essa condição tão rara um dia seja devidamente conhecida nos quatro cantos do Brasil e do mundo, a fim de minimizar a desinformação que tanto causa tolos preconceitos e cruéis discriminações.

Dia 24 de janeiro é um dia especial tanto para os portadores da Síndrome de Moebius quanto para os seus familiares e amigos, pois é um dia em que pessoas do mundo todo se voltam para reflexões concernentes a síndrome, bem como comemoram as suas conquistas e relatam as suas histórias de vida. 

Eu poderia dizer que ter uma síndrome que afeta diretamente a face, mais precisamente o sexto e sétimo nervos cranianos responsáveis pela mímica facial e pelo movimento lateral dos olhos, não é um campo de violetas. Ainda mais se levarmos em conta a exaltação de corpos e rostos perfeitos que a sociedade impiedosamente prega e, em vão, tanto busca.

Eu também poderia dizer que aprendi, ao longo dos meus 25 anos, a me desvencilhar dos pensamentos de inferioridade em relação aos seres humanos ditos normais. Não sou FORA DO NORMAL por ter uma raríssima síndrome. Sou FORA DO NORMAL por ter me transformado no que sou eu hoje, apesar de todos os empecilhos que surgiram em meu caminho. Sou FORA DO NORMAL porque soube lidar com as palavras ofensivas e olhares de pena e/ou repulsa dirigidos a mim. Sou FORA DO NORMAL porque me recuso a entregar os pontos, mesmo quando sinto que não me encaixo nesse mundo caótico e extremamente discriminador. Sou FORA DO NORMAL porque ainda acredito na capacidade das pessoas de surpreenderem positivamente umas às outras. Há uns seres desumanos que se assemelham a maçãs podres, e tudo o que eles mais querem é minar a alegria dos outros. São esses seres que desestabilizam tantas pessoas tidas como diferentes e fora de um padrão inalcançável que alguma criatura sem noção criou. Desconsideremos-as. Foquemos nossos olhares nas doces e boas maçãs.

Eu poderia dizer mais: que devemos buscar uma força imensa que há dentro de nós. Força essa que é inesgotável. Essa força nos mostrará a verdade que tantos membros dessa louca sociedade ignoram: o que mais importa em um ser humano não pode ser visto, apenas sentido. O que realmente é importante “é invisível aos olhos”, já dizia Antoine de Saint-Exupéry. Falo de essência, do que carregamos na alma e no coração.
Mas nesse dia arroxeado – cor que se escolheu para representar a nossa síndrome - só quero dizer uma coisa: ignoremos toda a negatividade, nos agarremos ao que nos faz bem e nos torna seres melhores e jamais deixemos de ser felizes. A vida vale a pena, sempre. A existência é da cor que nós damos a ela. E eu quero que a minha continue sendo um lindo arco-íris.

Meu nome é Erica Ferro, tenho 25 anos e sou alagoana. Sou estudante de Biblioteconomia e nadadora paralímpica. Mas, sobretudo, sou uma sonhadora – e não sou a única #‎beijosjohnlennon.
Faço questão de desconhecer limites. Não tenho asas, mas teimo em voar. Sacudir esse mundo é algo que me atrai, me distrai e me impulsiona a querer sempre mais.
“Para o alto e avante!”, como diz minha amada amiga Isabella Robinson.

Agradeço aos meus familiares e amigos queridos, que sempre me brindam com lindas palavras e adoráveis elogios e incentivos. A vida é mais colorida e bonita com vocês! Estamos juntos e misturados, sempre! Meu sorriso está no rosto de cada um de vocês. E isso não tem preço! Muito obrigada por tudo!

Sigamos todos, pois, com força, graça e fé!

Erica Ferro

22/01/16

Filme: Anita

Título: Anita
Ano de produção: 2009
Direção: Marcos Carnevale
Duração: 104 minutos
Gênero: Drama
País: Argentina
Sinopse: Anita é uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com sua mãe, Dora, que, além de mãe, é uma cuidadora extremamente zelosa. Na manhã de 18 de julho de 1994, Dora sai de casa para ir a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA resolver umas coisas, e deixa Anita em casa, lhe avisando que volta logo. No entanto, há um ataque a bomba na AMIA, e os tremores chegam a residência de Anita, destruindo parte da casa e dos móveis. Sozinha e sem entender o que está se passando, Anita sai às ruas. Nessa perambulação na procura por sua mãe, aprende a cuidar de si mesma, à sua maneira, e encontra algumas pessoas gentis e outras nem tanto assim, sempre as tocando de forma singular.

O ano é o de 1994 e a estória é a de Anita, uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com a sua mãe, Dora, em Buenos Aires. Dora é extremamente cuidadosa para com Anita. Trata-a como uma boneca de porcelana, lhe faz Maria-chiquinha e lida com a filha como se esta fosse uma criança de, no máximo, cinco anos. Dora se esqueceu de que não possuía a dádiva da imortalidade e não criou uma Anita com o mínimo de autonomia, capaz de saber de si e dos outros.


Na manhã do dia 18 de julho de 1994, Dora informa a Anita que irá a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA para resolver umas questões, mas logo volta para casa. Poucos minutos depois que Dora saiu de casa, houve um trágico acontecimento: um atentado a bomba a AMIA, que matou 85 pessoas e deixou 300 feridas. O atentado se trata de um caso real e Marcos Carnevale, diretor dessa belíssima película argentina, teve tato para retratá-lo com fidedignidade e respeito às vítimas e seus familiares. O caos do atentado, todas aquelas pessoas perambulando pelas ruas, sofrendo por estarem feridas e/ou por seus parentes estarem desaparecidos ou mortos é o pano de fundo da odisseia de Anita.


A destruição causada pelas bombas chegou até a residência de Anita, destruindo uma parte da casa e dos móveis. Assustada, Anita saiu às ruas, desnorteada, procurando por sua mãe. Extremamente doce e pura, Anita não sabe o endereço de onde mora, o nome de sua mãe ou o número de telefone da sua casa ou de algum parente. Ela não foi criada para lidar com o mundo e as pessoas.


Nessa série de desventuras, Anita se depara com Felix, um fotógrafo com tendência ao alcoolismo, que tem como esporte reclamar da vida e se sentir o homem mais miserável do mundo. Ele permite que Anita fique em sua casa por dois dias e cuida dela da melhor maneira que consegue. No entanto, às vezes, nós, humanos, deixamos falar mais alto aquela máxima egoísta "O que eu tenho a ver com isso?" e lavamos nossas mãos.


Nossa Anita continua em sua caminhada, constatando o quanto as pessoas podem ser adoráveis, bem como podem ser desumanas. Eis que conhece Nori e seu irmão, que, se num primeiro momento não sabem lidar com Anita, logo descobrem o quanto ela é uma pessoa especial, doce e inteligente. Anita, de fato, é uma criatura encantadora e de uma capacidade muito maior do que sua mãe julgava que ela tinha. São eles que ajudam Anita a voltar para os seus familiares.


O atentado a AMIA foi uma dura lição sobre o valor da família para Ariel, irmão de Anita, que estava sempre ocupado demais para sua mãe e sua irmã. Somos muito procrastinadores no nosso dia a dia, ignoramos pedidos simples de quem amamos e que nos ama também, porque estamos muito atarefados para lidar com isso no momento. Erro terrível, pois deixamos passar oportunidades ímpares e desperdiçamos momentos que jamais hão de voltar. Deveríamos dar mais atenção àquele dito "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje...".


A grande estrela do filme é Anita, que, com a sua doçura e olhar simples frente a vida, encanta a todos que passam por seu caminho. Acredito que um das grandes lições que o filme quer apresentar é justamente a irracionalidade do terrorismo. Terrorismo trata-se de atos bárbaros que destroem famílias e ceifam vidas. Não há nada que justifique atos assim. Nada. 
Outra mensagem fundamental que acredito que o filme busca passar é um alerta aos pais que protegem ao extremo os seus filhos com alguma síndrome e/ou deficiência, lidando com eles como se fossem bebês, como se os deficientes fossem incapazes de viver no mundo e de ter o mínimo de autonomia possível. Somos todos capazes de quebrar barreiras e de ir além do que acham que podemos ir. Com estimulação e uma excelente orientação, todas as pessoas podem ser capazes de feitos extraordinários, tendo uma deficiência ou não. 
E, por último, mas jamais menos importante, o filme é sobre gentileza, amor e simplicidade. A vida fica tão melhor quando adicionamos gentileza, amor e simplicidade aos nossos atos. Tudo bem que gentileza nem sempre gera gentileza, porque sempre existirão pessoas ranzinzas no mundo. No entanto, não é por isso que deixaremos de ser gentis. O amor deve ser sempre o Leitmotiv da nossa vida. Para o nosso cotidiano ser mais florido e a nossa vida ter cores vivas e bonitas, a nossa existência deve ser pautada na gentileza, no amor e na simplicidade. Assim, fica bem mais fácil viver!

O filme tem o ritmo certo para nos encantar, emocionar e nos fazer refletir sobre questões muito importantes acerca da vida e do viver. Para quem indico esse filme? Todos, sem exceção. É um filme com doses certas de agruras, doçura, amor e aprendizados.

Erica Ferro

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19/01/16

Resenha: A garota do penhasco - Lucinda Riley

A garota do penhasco
Lucinda Riley
Novo Conceito
528 páginas
☺☺☺☺
Sinopse: A Garota do Penhasco é um romance que enreda o leitor através de vários fios: a história de Grania Ryan e sua querida Aurora Devonshire, a garota do penhasco, nos fala sobre mudança de vida. A história das famílias Ryan e Lisle é um lindo conto sobre um século de mal-entendidos e rancor entre inimigos que se acreditam enganados por falcatruas financeiras. O caso de amor entre Grania Ryan e Lawrence Lisle comove por sua delicadeza e força vertiginosa que culmina em imensa tristeza. Mas, sobretudo, A Garota do Penhasco é um livro que mostra como é possível encontrar uma finalidade, um propósito, quando todas as esperanças parecem perdidas. “De ritmo tenso e original, este é um romance envolvente sobre recuperação, resgate, novas oportunidades e amor perdido.” -- Booklist

A garota do penhasco foi o meu primeiro contato com a escrita de Lucinda Riley, e posso dizer que foi uma feliz experiência. De acordo com informações do Skoob, a escritora é natural da Irlanda, mas mudou-se para Londres ainda jovem, e lá tornou-se atriz, trabalhando em teatro, cinema e televisão. Depois de adquirir uma bagagem considerável concernente ao ramo da dramaturgia, Lucinda, aos 24 anos, lançou o seu primeiro romance. Atualmente, a autora tem fãs pelo mundo inteiro. Inclusive, de acordo com uma matéria postada pela Saraiva Conteúdo, em 2013, Lucinda diz ter sido aqui, no Brasil, mais especificamente na 22ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, que viveu um dos momentos mais ímpares da sua vida. Quando chegou ao estande da Editora Novo Conceito, Lucinda Riley era esperada por aproximadamente duas mil pessoas, que, quando a viram, a aplaudiram com fervor, à espera de um autógrafo.

Por essa singela apresentação, dá para ter uma noção de que Lucinda manda muito bem enquanto escritora e, em decorrência de seu talento, conquistou muitos fãs, certo? Sou apaixonada por livros de época e foi ótimo conhecer uma escritora contemporânea que sabe costurar tão bem passado e presente quanto essa adorável irlandesa. Em A garota do penhasco, Lucinda consegue ligar pessoas de duas famílias, os Ryan e os Lisle, em diferentes épocas. É incrível como, de algum modo, as histórias dessa gente se cruzam e quase sempre o resultado desses encontros não é nada agradável ou bom de se recordar.

Grania Ryan, escultora renomada, depois de anos morando em Nova York, volta a sua cidade de origem após vivenciar uma experiência dolorosa, e isso muda a vida dela para sempre. Sem nem perceber, ela se envolve com a família Lisle de uma forma singular. A garotinha do penhasco, Aurora Devonshire, uma menininha de oito anos com uma energia aparentemente interminável e uma maturidade de um ancião, rouba o coração de Grania e é a grande responsável por transformar o futuro dessa mulher, que até então se encontrava desencantada da vida, sem ânimos e sem perspectivas.

Com o decorrer da trama, com Aurora como narradora da estória, sabemos de todos os problemas e sofrimentos que os Lisle fizeram com que os Ryan passassem. O encontro dessas duas famílias quase sempre resultou em ódio, tristeza e muita dor. Kathleen, mãe de Grania, temendo que a ligação da filha Grania com os Lisle também resultasse em algo trágico, passou a contar todos os acontecimentos lamentáveis do passado envolvendo as duas famílias, com o intuito de convencer a filha a se afastar da menina Aurora e de seu pai, Alexander Devonshire. Aos poucos, Grania descobria um pouco mais sobre seus antepassados e por quantos perrengues eles tiveram de passar por conta dos Lisle, mas, o carinho maternal que nutria por Aurora e o encanto pela pessoa de Alexander, não permitiu que ela se desligasse dos Lisle.

Mary Ryan, bisavó de Grania, uma das personagens que mais me comoveram na estória que Lucinda construiu com esmero, foi uma das que mais sofreram por conta da escolha de se ligar ao Lisle. Após tornar-se adulta e transformar-se numa bailarina famosa, Anna, a quem Mary adotou com tanto amor, não soube ser grata a tanto afeto que essa primeira a dedicou. Lily Lisle, filha de Anna, mãe de Aurora e esposa de Alexander, vivenciou momentos terríveis em sua adolescência, que provavelmente deixaram sua alma perturbada. O irmão de Kathleen, mãe de Grania, esteve envolvido nesses momentos terríveis e, infelizmente, por conta da covardia de uns, mais de Anna do que propriamente de Lily, teve a sua vida arruinada. O ressentimento por parte dos Ryan para com os Lisle foi inevitável - e compreensível. Gerações prejudicadas e vidas destruídas pelos Lisle desregulados e passionais.

Aurora, talvez um ser angelical disfarçado de criança, e seu pai Alexander, um homem encantador, surgem na vida dos Ryan aparentemente com a missão de curar as feridas do passado. Grania, Kathleen e família ganharam a oportunidade de relembrar por todas as coisas que seus familiares passaram e, assim, puderam repensar os seus ódios e remorsos. Há pessoas que são mais anjos do que seres humanos. Materializam-se em nossas vidas para nos ensinar algo, para nos tirar da zona de conforto e, desse modo, nos impulsionar para sermos criaturas melhores, pautadas na positividade e na leveza.

A garota do penhasco é um livro sobre duas famílias que se amaram e se odiaram, que guardaram rancores e ódios, que alimentaram ressentimentos, mas, que, ao fim, a geração mais recente pôde alcançar o amor e o perdão, elementos que são capazes de neutralizar grande parte da negatividade que teima em existir dentro de cada um de nós.

Gosta de livros com uma boa dose de História, drama, romance e doçura? Então, acredito que esse pode ser uma agradável leitura.

Erica Ferro


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