25 janeiro 2015

Resenha: O Livro do Amanhã - Cecelia Ahern



O livro do amanhã
Cecelia Ahern
Novo Conceito
368 páginas

☺☺☺☺

Sinopse: Tamara Goodwin sempre teve tudo o que quis e nunca precisou pensar no amanhã. Contudo, de repente, seu mundo vira de cabeça para baixo e ela precisa trocar sua confortável vida da metrópole por uma cidadezinha do interior. Assim, Tamara logo se sente solitária e louca para voltar para casa.
Então, uma biblioteca itinerante chega ao vilarejo, trazendo junto um misterioso livro de couro trancado com uma fivela dourada e um cadeado. O que Tamara descobre ao longo de suas páginas a deixa surpresa. E tudo começa a mudar das maneiras mais inesperadas possíveis... Será possível mudar o amanhã?




O livro do amanhã é o primeiro livro que leio da escritora irlandesa Cecelia Ahern. Talvez o nome não lhe seja familiar, como não era a mim algum tempo atrás. No entanto, P.s.: eu te amo te lembra algo? Sim, é um filme bastante conhecido. Ele é baseado no livro homônimo de Cecelia. Faz um tempo que eu assisti ao filme, então eu nem atinei para pesquisar se o filme era baseado num livro antes de ver a película. Só fiquei sabendo quando comecei a ver o filme, porque, se eu não me engano, o início e créditos, incluindo o encarte, davam essa informação. Honestamente, eu não me emocionei ou chorei horrores com o filme, como aconteceu com algumas pessoas que conheço. Em minha defesa, quero dizer que, sim, tenho um coração pulsante aqui no peito, e é grande. No entanto, sabe como é, não rolou uma química entre nós. Poderia discorrer mais a respeito das razões de eu não ter gostado do filme, mas na verdade não lembro muito bem, porque, como disse antes, vi há um tempo. Contudo, se o filme tivesse me marcado de algum modo, como outros longas já o fizeram, eu lembraria dele com mais emoção.
Pois bem, há muito tempo que a Editora Novo Conceito me enviou, em parceria, O livro do amanhã, mas eu meio que o evitei porque já havia tentado ler P.s.: eu te amo em e-book e não deixei para lê-lo em outra época, afinal não consegui passar das primeiras páginas (fiz-o bem depois de ter visto o filme, porque queria ver se a adaptação havia sido ruim ou se era o livro que não conseguia me tocar). Desse modo, por medo de ter uma experiência igual a que tive com P.s.: eu te amo, dei prioridade a outras leituras e o deixei de escanteio. Até que, então, esses dias pensei cá com os meus botões e resolvi dar uma chance a Cecelia. Confesso que não achei que ela conseguisse me cativar com um só livro, mas a danada conseguiu! Li algumas resenhas um tanto negativas sobre esse título, sobre não ser um bom livro ou não ser um bom livro para quem vai ler a Cecelia pela primeira vez. Então, meu caro leitor, sou uma pessoa totalmente às avessas, porque, no meu caso, esse foi o livro certo para começar a ler Cecelia! Estou na estrada contrária a quem adorou P.s.: eu te amo e/ou acha que é o melhor livro da autora.
Honestamente, O livro do amanhã é muito bom. Quem já leu e não gostou tanto, por favor, não faça esse muxoxo. Explicarei porque gostei tanto do livro. É um livro simples, admito. Não inova em praticamente nada. Imagina que ele conta a estória de uma adolescente por volta dos seus dezesseis/dezessete anos, mimada, rica, estúpida, no sentido de ser rude com o mundo inteiro - e que o meu lado hiperbólico seja perdoado - e inconsequente. Assim é Tamara Goodwin, ao menos no início da trama, até o momento que passa um furacão em sua vida, destruindo tudo e a forçando, junto com a sua mãe, a mudar de cidade e se adaptar a uma realidade que ela nunca imaginou que viveria e, francamente, não estava afim de viver.
Entretanto, é por causa desse furacão, por causa desse caos, que ela finalmente saberá o que é a vida, especialmente, o que é a sua vida e quem ela realmente é. Quem e o quê proporciona essa porta para que Tamara desabroche ante o mundo? Um rapaz agradável chamado Marcus e uma biblioteca itinerante. Biblioteca faz você lembrar de algo, leitor? Sim! É um dos lugares que eu mais amo no mundo! Sim, deve ser porque sou apaixonada por livros e curso Biblioteconomia. Não pude deixar de citar isso na resenha, foi mais forte do que eu. Continuando: é no ônibus-biblioteca que ela encontra um livro sem título, autor, ou seja, sem nenhum dado e que ainda por cima está trancado com um cadeado. Como qualquer ser humano curioso, é esse livro que Tamara pega emprestado. Com alguma dificuldade, ela dá um jeito de abrir o livro, que se revela um diário, e ela percebe que ele é um tanto... mágico. É o diário que devolve emoção aos seus dias e é através dele que ela passa a atentar seus olhos para quem e o quê está a sua volta, buscando respostas para perguntas que surgem dia após dia, posterior a mais um episódio estranho, que, de um modo misterioso, parece ter a ver com a sua vida e a de sua família.
Sim, é um livro simples. Uma adolescente, um diário mágico e mistérios familiares a serem descobertos. Mas, cara, eu gostei! Eu não acho que eu fui uma adolescente rebelde ou irritante ao extremo, como Tamara se mostrava ser no início do livro. Mesmo não tendo um passado conturbado em relação ao período da adolescência, eu gosto de ler sobre histórias de pessoas que foram o diabo, com o perdão da palavra, em sua adolescência. Há rebeldes sem causa e há razões para rebeldia em alguns seres. Há alguns motivos para que Tamara fosse a peste que era. E é com o passar das páginas que notamos esses motivos e nos alegramos com a ampliação da capacidade da Tamara não só de visualizar a si própria e mudar algumas características prejudiciais suas, como também a percepção que passou a ter das pessoas ao seu redor. Isso foi de fundamental importância para que ela pudesse descobrir todas as coisas que descobriu e seguir em frente, independente da sua nova condição, que nesse ponto, aliás, já não lhe era desagradável como antes um dia o fora.
As lições desse livro são bobinhas e que, justamente por assim o serem, nos esquecemos delas com facilidade. O amor ainda é (e, por Deus, será para sempre!) o elemento mais importante do mundo. É por causa desse sentimento que pessoas movem céus e terra para protegerem os seres que amam e sacrificam a si mesmas, inclusive, se for necessário, para que essas pessoas tão amadas sejam felizes apesar dos pesares.
Creio que o personagem que mais me chamou a atenção foi de fato a Tamara, talvez por o livro ser narrado pela própria personagem. Preciso reconhecer duas coisas: a primeira é que a Cecelia tem um jeito muito gostoso de narrar, apesar de se prender muito, em alguns trechos, em descrições de cenas e paisagens e repetir algumas ideias - ou expressões - que, OKAY, eu já havia entendido que Tamara gostava. A segunda é que os personagens secundários não foram tão bem explorados ao longo da trama. Creio que ficou tudo muito para as últimas páginas, inclusive as revelações mais importantes, como também a porção de aventura que o livro tem a dar. Em alguns momentos, ainda que eu estivesse curtindo à beça a narração, me perguntei "Certo, mas quando vai começar a coisa? Quando começará 'a caça às bruxas'?", e demorou muito para ter esse meu questionamento respondido. Em síntese, os personagens mais trabalhados foram a Tamara, George, pai de Tamara, e Rosaleen, uma criatura essencial da estória. E, claro, a Irmã Ignatius, uma doçura de personagem, que me cativou com facilidade. Jennifer, a mãe de Tamara, ao meu ver, poderia ter sido melhor trabalhada, assim como Arthur, tio de Tamara. 
O livro é um romance que se encaixa em algumas categorias, por exemplo: drama, YA, fantasia e chick-lit. Se você gosta de alguns desses gêneros, estimado leitor, O livro do amanhã provavelmente será um bom livro pra você.
A capa é bem bonita e retrata uma cena do livro. A diagramação é ótima, o que deixa a leitura fluida e sem atravancamento. Não encontrei erros de digitação ou ortográficos na edição. Parabéns por mais uma bela edição, Novo Conceito!


Como a Editora Novo Conceito é uma queridinha, fez um book trailer bem bonitinho desse livro da Cecelia. Ei-lo:


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Um abraço carinhoso da @ericona.
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24 janeiro 2015

A janela e os pássaros - Eliana Neves


Olá, pessoal! Tudo bem? Hoje eu, Erica Ferro, trago um escrito muito belo de uma amiga que me é muito querida, a Eliana Neves. É um conto que fala de um amor puro, sublime e muito especial. A Eliana fala de amor com muita doçura e muita leveza nas palavras. É impossível não se encantar ou não soltar um suspiro, ainda que pequeno e/ou tímido no decorrer e ao fim desse conto. Eliana me mostrou o conto A janela e os pássaros em primeira mão, o que me deixou muito honrada, e me autorizou a publicá-lo aqui no blog.
Abram os seus corações e recebam essa linda mensagem!

A janela e os pássaros -  Eliana Neves


O verão naquele ano foi bastante intenso. Era comum os moradores de Várgea do Norte se refrescarem em suas janelas. Passavam horas nas sacadas para receber o ventinho que vinha do sul e, aproveitando para isso, colocarem as conversas em dias, ou melhor, acompanhar com olhos não muitos discretos a vida alheia.
Que verão foi aquele! Nem o maior dos mexeriqueiros poderia imaginar que aquele dito verão daria o que falar naquela cidadezinha.
De todas as janelas em Várgea do Norte havia uma que era especial. O que a fazia tão especial era aquela senhora. Todas as manhãs, parecia um ritual, ela abria a janela de seu quarto como se estivesse abraçando o mundo. O seu sorriso se confundia com os raios do sol que penetravam feito cometa a iluminar a alcova de um amor amado no silêncio.
Podia-se ver o brilho que trazia no olhar, a alegria de suas gargalhadas que mais se parecia a uma cantoria de cotovias. Por que uma cotovia? Sim, é ela que anuncia o novo dia! Que mulher encantadora! Não era bonita, mas tinha lá seus predicados de beleza. Não sei o quê ou qual era o quê naquela mulher que chamava a atenção de todos que passavam pelo outro lado da rua. Não havia um só homem que não lhe fizesse a corte ou uma só mulher para não lhe atribuir um novo defeito. “Que bela senhora!” – Pensavam eles enquanto acenavam reclinando suas cabeças.
Todavia, aquela senhora – agora a chamaremos pelo codinome de Cotovia – só tinha olhos para um só amante – um Rouxinol. Rouxinol? O que faz dizer que ele seria um rouxinol? Posso afirmar que não há ave igual na cantoria para embalar o ninho dos amantes durante toda a noite. Ele era, sim, capaz de “cantar” para sua amada sem jamais se cansar. Era assim que ele se definia para os mais íntimos: “uma tempestade disfarçada de calmaria num fim de tarde de inverno.”
A Cotovia era gentil e alegre com todos, mas somente para aquele Rouxinol seu canto saía perfeito. Tudo se fazia especial. Seus olhos brilhavam, sua respiração ficava ofegante quando ele se aproximava, sua pele exalava um perfume que só aquele belo Rouxinol era capaz de sentir. Funcionava como se fosse um feromônio que os insetos exalam para o acasalamento. Aquele cheiro da Cotovia tinha um efeito devastador sobre o Rouxinol. E o que dizer do coração dela? Ah... o coração! Ele pulsava numa nota só: “Eu te amo!” E o olhar? Quando os olhos deles se encontravam em meio ao barulho do dia, em meio à clandestinidade... Tudo era silêncio. Eles não precisavam falar nada, pois aquela linguagem era suficiente. Por instantes, que mais pareciam uma eternidade naquele momento, enquanto ela fechava ternamente seus olhos abrindo-os em seguida para dizer “eu gosto muito de você”; ele, porém, permanecia com um olhar firme fitando-a. Era como se dissesse: “Sofro. Te amo. Te quero como nunca quis outrem.”
Mas, por que dizer que o amor era amado no silêncio da tarde ou na escuridão da noite? Apenas o que se sabe é que os amantes não poderiam revelar seu amor, haviam feito uma escolha e não podiam voltar mais atrás. Existia algo maior do que eles que impedia que pudessem viver tamanho bem querer e afeto e uma grande paixão que perdurou por alguns anos.
Não foram poucas as vezes que o amor deles passou por crises. Que cruel! Da mesma forma que viviam a paixão no silêncio do ninho, da mesma forma viviam as separações no silêncio das lágrimas. Esse amor no toque, no olhar, no cheiro e no sorriso também vivia as suas controvérsias. Era como que, de repente, a harmonia que sentiam um pelo outro pudesse se desfazer de modo que ninguém mais conseguia ouvir mais a música que saía de seus corações. Muitas vezes, surgiam dúvidas de quem amava mais. Ambos estavam enganados. A cada crise nunca havia um vencedor, apenas retalhos a serem costurados, cacos a serem juntados e galhos do ninho despedaçado. Quantas coisas pairavam sobre eles, embora soubessem que se amavam.
Certo dia, a nuvem mais nebulosa veio sobre eles. Já não parecia que se conheciam, que se amavam. Eram estranhos. Após palavras e atitudes tristes, um grande silêncio tomou conta deles. Em seus corações já não havia mais música, o jardim já não estava mais florido como antes. O mundo deles não existia mais. O ninho se desfez. Por falar em jardim, sabe aquele jardim da alma? Aquele jardim que somente pouquíssimas pessoas podem entrar e tocar o orvalho das flores no amanhecer? Sentarem num banquinho para observarem a revoada de pássaros quando o entardecer chega Pois bem, naquele infame dia, o Rouxinol, movido pelo mais desgraçado sentimento, proferiu palavras duras ao dizer que sua Cotovia jamais entraria novamente em seu jardim secreto. Era uma tentativa desesperada da passionalidade para dizer: “Não quero mais você em minha vida.” Que engano! Naquele mesmo dia, antes mesmo que rompesse a noite, o pobre Rouxinol cantava em prantos de dor pelo arrependimento por ter ferido sua bela Cotovia.
Os dias se passavam e o peso da mágoa ainda encobria o canto da Cotovia. Aquele sorriso que contagiava a todos também desapareceu da face da Cotovia. Para não dá a entender o que se passava no seu interior, dissimulava a alegria. Enquanto ela tentava disfarçar para quem a conhecia o que estava acontecendo, o Rouxinol caía em melancolia. Talvez ainda fosse cedo, mas nada que ele pudesse falar iria fazê-la mudar de ideia naquele momento. Como eram longos aqueles dias! Eles se arrastavam por entre a tristeza dos amantes. Sem sucesso, pedidos de perdão foram cantados pelo Rouxinol na melodia mais triste que já se ouviu na natureza. Igualmente respondeu a Cotovia, por trás da janela – desde que aconteceu a separação, sua janela não se abria mais. E todos os seus admiradores passavam e se perguntavam o que estava acontecendo com a bela senhora que já não dava mais o ar de sua graça debruçada na janela mais florida de toda a cidade.
O que somente ela respondia era que precisaria de tempo para curar tão medonha ferida aberta por quem só deveria amar e amar e amar. Ó Cotovia! Agora defendo o pobre Rouxinol. Quem já não ouviu dizer que uma chuva de contradições provoca a alma humana constantemente? Será unicamente o amor capaz de ser imune às ciladas da dicotomia dos outros sentimentos? Não, bela senhora. Nem mesmo o amor pode ficar ileso de ser machucado por aqueles que amamos. Muitas vezes ele disse para ela: “Você tem o pior e o melhor de mim. E sabe por quê? Porque tudo em mim é verdadeiro e intenso.”
Como nada ainda surtia efeito, tomou o Rouxinol uma atitude. Decidiu, a cada manhã, levar um galhinho verde todos os dias - feito um contrato, uma religião – e assim, colocar na janela da amada. Era seu pedido de perdão até que sua amada lhe perdoasse devolvendo outro galho verde. E assim ficou: a cada amanhecer, um novo galhinho verde fazia companhia a outros do dia anterior, se juntava às flores da janela. Cada galho continha cinco folhas. A simbologia do número 5 era importante para os amantes, pois como não podiam se declarar publicamente, trataram de criar algo que pudesse identificar o amor de ambos; na verdade, foi a Cotovia quem criou os cinco pontos (.. ...). Fiquei sabendo anos depois que isso .. ... significava isto: “EU TE AMO”. Desde então, cada carta, bilhete, dedicatórias ou qualquer outra coisa que remetesse aos cinco pontos lembrava o amor deles.
Embora a Cotovia já ensaiasse algumas falas, ainda não era como antes. Talvez nunca mais fosse. Mas, mesmo assim, todos os dias o Rouxinol voava até a janela dela para ver se estava aberta e reparava que os galhinhos haviam sido recolhidos. Ele se alegrava, mas sempre esperava mais.
Por fim, tomou outra decisão: levou seu próprio coração. Debaixo daquela janela, cantou e cantou e cantou sem parar até que a bela senhora abrisse novamente sua janela como ela fazia antes, como um ritual. O belo Rouxinol não se importava mais com quem passava pela rua, em pouco tempo todos de Várzea do Norte puderam conhecer o canto, o choro, a alegria e a tristeza do Rouxinol a espera de sua Cotovia. Por horas e horas, lá estava ele a cantar, a esperar o ranger da janela se abrir. E com ele, toda a expectativa dos curiosos. Já não se importavam mais que o amor deles não era aceito por muitos, que durante muito tempo foi vivido às escondidas, era um amor quase impossível. De tão ditosa alegria e dor do Rouxinol, todos passaram a esperar junto com ele a bela Cotovia sair na janela com aquele sorriso tão lindo. 
Já se fazia cair a tarde quando a janela se abriu lentamente. E lentamente também todos foram silenciando. Aquele momento era dos amantes. A bela Cotovia surgiu na sacada da janela. Estava tão linda com seu vestido ternamente estampado combinando com aquele fim de tarde de verão. Ela trazia consigo um pequeno ramalhete feito de pequenos galhos verdes e era possível ver, em cada um, as cinco folhinhas. Por quase uma eternidade aqueles olhares se encontraram novamente. Foi então que ela arremessou o ramalhete até ele.
Então, ele cantou como nunca havia antes cantado. Que belo canto! Que belo perdão! Mas ainda faltava algo a fazer. O Rouxinol, dali mesmo, com ajuda de outros, voou até ela pousando rente ao seu rosto.
Enfim, eles tinham muito que cantar ainda .. ...

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Um abraço da @ericona.
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23 janeiro 2015

Documentário: Criança, a alma do negócio

Título: Criança, a alma do negócio
Ano produção: 2008
Direção: Estela Renner
Estreia: 1 de Janeiro de 2008 (Brasil)  
Duração: 49 minutos
Gênero: Documentário
Países de origem: Brasil
Sinopse: Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?
Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumes. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.


A publicidade infantil é cruel, inicio o texto dessa forma porque é com essa reação que você termina de ver o documentário Criança, a alma do negócio. É cruel e aproveitadora. Segundo o IBGE, a criança brasileira é a que mais assiste TV no mundo. Ela passa em torno de cinco horas vidrada na televisão. Em resposta, as crianças confirmam que gostam mais de assistir TV do que brincar. O que é um problema, porque, como bem disse um jornalista num ponto do documentário, “a TV amolece o músculo da imaginação”, ao passo que expõe algo já mastigado, algo já pronto, em vez de dar a oportunidade para que a imaginação e o senso crítico sejam exercitados. O principal canal das propagandas é a TV e, dessa forma, crianças de todas as classes sociais têm acesso e são afetadas por esse tipo de abordagem. Preocupante, obviamente, pois algumas delas começam a sonhar e almejar algo que, além de não ser útil e proveitoso, está fora do orçamento de seus pais, o que as deixam frustradas e tristes.
Quão assustador é ver meninas de quatro, cinco anos querendo se maquiar de maneira similar a moça da novela ou a menina do comercial? Caramba, é uma menininha de quatro anos, quase um bebê querendo usar maquiagem! E quando meninas de sete, oito anos querem usar salto alto para se sentirem mais altas do que são? E por que querem se sentir mais altas do que são? Porque a mídia diz que as meninas/mulheres poderosas são altas ou, se não são, usam salto alto. Provavelmente isso.
A publicidade voltada para crianças é bem apelativa, não diferentes das outras, infelizmente. No entanto, estamos falando de publicidade para crianças. Se uma criança vê na TV que se ela usar um sapato de tal jeito, vai ser mais descolada, mais legal e até mais feliz, com certeza pedirá aos seus pais que lhe compre o danado do sapato. Pedirá, ainda mais, se uma outra criança amiga dela tiver o tal sapato, porque significará que a outra criança é mais descolada e poderosa do que ela. Foi a TV que mostrou, ela bem se lembrará. Ela não vai querer ficar fora da moda, vai? Óbvio que não. E desata a desejar consumir mais e mais.
No documentário, o advogado, jornalista e professor universitário Clóvis de Barros Filho relembra que, tempos atrás, o que fazia uma criança se enturmar em algum grupo era a sua capacidade de jogar bem algum tipo de jogo, seja bola, queimado, etc; mas, agora, na realidade em que vivemos, o que faz uma criança ser inserida num grupo mais facilmente é ela ter determinado brinquedo, vestir e calçar determinada marca. Ou seja, o lance agora é ostentar.
Um dado preocupante é o grande número, que continua a crescer, de crianças que cada vez mais perdem a infância em decorrência da descoberta das novas tecnologias e do consumo desenfreado motivado pela publicidade infantil.
Muitas meninas, por exemplo, vão à escola – ou a qualquer lugar – usando maquiagem, salto alto, entre outros adereços que, normalmente, só se usa na idade adulta. Por qual motivo? Porque viu num comercial de marca X um salto alto bonito, igual ao da atriz X, que, por usar tal salto, é poderosa e incrível, diz a propaganda. A menina quer ser igual, quer ser poderosa igual a tal moça da moda. A publicidade usa de apelação e mais apelação.
No documentário, uma pedagoga fala justamente da proibição frequente do uso de saltos que tem de ser feita na escola em que ela trabalha porque as meninas não conseguem correr de salto; e, se conseguem e chegarem a cair, correm o risco de se machucarem além da conta por causa do salto. Uma menininha conta toda orgulhosa os seus trinta e três pares de sapatos. Antes, ela frisa que adora um deles porque a faz parecer mais alta.
A verdade é que na maioria das vezes os pais fazem mais do que podem pelos filhos, estouram seus orçamentos e satisfazem as vontades de seus pupilos, lhes comprando algo caríssimo, com os quais os pequenos brincam por menos de uma semana e depois deixam na reserva, abandonado. E óbvio que vão pedir outro brinquedo ou outra coisa pra suprir... O quê? O desejo consumista?
Uma mãe fala algo bastante interessante sobre o comportamento dos pais em relação aos efeitos da publicidade infantil, algo como “Para suprir a nossa ausência na vida deles, já que muitos de nós vive em função do trabalho, de dar uma vida legal pra eles, e também para nos vermos livres dos muitos pedidos lamuriosos dos filhos, passamos a dar tudo o que as crianças desejam.”, ideia que uma psicanalista rebateu dizendo que não é bem assim que os pais devem agir. Ela ressalta que o desenvolvimento de uma criança se dá justamente quando ela tende lidar com a frustração, com a palavra ‘não’, com o ‘não pode’ e o ‘não dá’.
É chocante visualizar crianças que sabem o nome de várias marcas e produtos, mas não sabem o nome de frutas e legumes porque só consomem coisas industrializadas, pré-fabricadas. É chocante e triste.
De quem é a culpa? Dos pais? Dos publicitários que ferem a ética apelando desse jeito para com crianças que não têm senso crítico pra discernir se aquilo que lhe é mostrado é algo útil e se ela realmente necessita daquilo? Dos governantes que, na maioria das vezes, deixam passar batido esse tipo de coisa que fazem os publicitários, porque, de uma maneira ou outra, isso gera bastante dinheiro? Dos homens da lei que não proíbem esse tipo de propaganda escancarada e reconhecidamente prejudicial às crianças? Porque redigir leis é fácil. Quero ver é fazê-las serem cumpridas. Aí, sim, eu quero ver! A quem interessa de que leis que ferem a ética e ludibriem crianças não sejam cumpridas? Pensemos um pouco. Respondam para si mesmos. 
Podemos deixar isso assim? Claro que não. Eu, você e todo mundo precisa incomodar. Precisamos desconstruir esse monstro do consumismo doentio e desenfreado que cresceu nos últimos tempos. É difícil, é, ainda mas por ser algo que é alimentado todos os dias por diversos meios, especialmente os televisivos. Difícil, mas não impossível. Não se muda o mundo num segundo. É tudo um processo lento e árduo, É que, realmente, não vejo perspectiva num mundo no qual crianças têm a sua infância encurtadas ou perdidas. Eu não vejo perspectiva num mundo no qual uma menina, por volta dos seus doze anos, diz que necessita sempre carregar uma base e um batom na bolsa, além da importância que ela vê em assistir desfiles de moda, para ver como se portar e se vestir, porque, segundo ela, é muito importante estar bonita e bem vestida. Nota-se uma hipersexualização das crianças, quando o esperado era que todas essas crianças agissem como tal, correndo e brincando por aí. Mas não: elas estão se preocupando com a roupa que vão vestir, com o sapato que vão usar, com o brinquedo que precisam comprar para ficar dentro da moda, a fim de não ser rechaçadas.
A culpa não é só da publicidade. A culpa não é só dos pais. A culpa não é só do governo. E, de forma alguma, a culpa é da criança. A criança, aqui, é a real vítima. Os pais devem fazer o seu papel, o governo idem e o pessoal da publicidade precisa se questionar até que ponto é válido chegar para vender os seus produtos e alcançar os seus intentos. Ferir a ética e desrespeitar as crianças, na minha visão, extrapola o ponto que eu considero saudável e digno.
O documentário, como diz na sinopse, é cru e escancara a realidade sem meias palavras ou reservas. Essencial para impactar e causar reflexões acerca dos maléficos causados pelas publicidades abusivas. Indicado especialmente para educadores e pais, para que tomem conhecimento do problema e saibam trabalhar o assunto de uma maneira mais didática e acessível aos pequenos. Criança, a alma do negócio também é uma produção de Maria Farinha Filmes, a mesma que produziu o documentário Muito além do peso, que também já vi e escrevi sobre ele aqui no blog.

O documentário completo pode ser visto pelo próprio canal Maria Farinha Filmes. Ei-lo:



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14 janeiro 2015

Tudo ficará bem!



Farin Urlaub Racing Team - AWG (Alles wird gut)

Tudo ficará bem!

É trágico, mesmo sendo um pouco cômico, a nossa cegueira quando estamos perdidos, entristecidos, magoados ou até mesmo cansados de tudo, inclusive de levantar da cama e ir viver. A verdade é que às vezes a vida se apresenta pra nós de uma maneira tão pesada, tão difícil de lidar, que a gente vai pela via mais fácil: de mergulhar no problema e só pensar no pior. É mais fácil, sim, porque sair do buraco e resolver solucionar o problema exige esforço, foco e desprendimento. Pode parecer insano, mas, no íntimo, somos meio masoquistas. Não que nos sintamos felizes em sofrer, mas é como se, inconscientemente, achássemos que merecemos tudo que está acontecendo conosco ou que, como a culpa da nossa desgraça não é nossa, foi outro alguém que causou a nossa perdição, precisamos sofrer muito, só pra provar pra todo mundo o quanto alguém foi terrível conosco. E isso é lamentável.
Há pessoas que são extremamente cruéis e causam estragos descomunais na vida das outras, conscientemente ou inconscientemente. Mas aí é que tá! Se a gente for se apegar ao mal que fizeram conosco, aos momentos ruins que nos fizeram viver, nunca vamos conseguir enxergar a luz no fim do túnel ou dar o primeiro passo pra trilhar um caminho mais feliz e deixar pra trás toda a dor e a tristeza que só nos assola e nos causa mal-estar.
Poxa vida! Só temos uma chance de ser felizes. Não podemos nos entregar ao sofrimento e a autodestruição. Viver é dureza, mas também tem o seu lado doce e bom. A vida não só é feita de momentos difíceis, a gente precisa desenvolver a habilidade de perceber, nas singelas e sutilezas da vida, o que realmente vale a pena e o que nos enternece e nos faz melhores. É preciso deixar as coisas supérfluas pra trás, no mar do esquecimento. É preciso tirar do nosso coração o peso do rancor e da mágoa.
O lance é viver o aqui e agora, da melhor forma possível, buscando sentir a alegria que mora num céu azul, no canto dos pássaros e na gargalhada de um bebê. Temos que focar no que nos faz sorrir e no que nos impulsiona rumo a felicidade, a paz de espírito e aos bons sentimentos, que, se cultivados com amor e cuidado, darão lindos e doces frutos.
A vida é bonita, minha gente. É, sim, posso dizer isso com propriedade. As dificuldades e os problemas que surgem durante o caminho devem servir pra nos fortalecer e proporcionar uma ampliação de nossos horizontes.
Eu vivo a vida com graça e alegria, porque meu espírito, mesmo que seja castigado ou humilhado vez ou outra, sempre dará a volta por cima e sorrirá ante o imenso leque de possibilidades de ser feliz e de me sentir plena. 
Com esse mundo tão caótico, prestes a desabar sobre as nossas cabeças, o melhor que podemos fazer é dar ouvidos aos discursos que falam de amor e de paz. Precisamos deixar que o amor encha nossa vida e se reflita em nossos atos.
O mundo precisa de amor e de naturalidade. Não é preciso criar toda uma programação de como se viver bem. O "pulo do gato" é justamente se sentir bem, pensar no que faz bem e fazer o bem. De forma natural. De forma genuína. É disso, entre outras coisas, que se trata a vida e o viver.

Erica Ferro

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04 janeiro 2015

Não cabe orgulho onde há amor


“(...)
♪ ♫ ♪ Se pudesse voltar no tempo
Jamais mudaria um só momento
Então vai, é tudo o que eu posso pedir
Olhe pra trás, eu ainda estarei aqui

Do mesmo jeito (do mesmo jeito!)
Que você deixou
Vou te esperar
Mais certo que o nascer do dia
Só pra dizer (só pra dizer)
Que não acabou
Quero você
Pra encher minha casa vazia ♪ ♫ ♪
(...)”
(Skank - Do mesmo jeito)



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Não, não acabou.
Não, eu não quero acreditar que tenha acabado.
Você quer?

Se pudesse mudar o que foi,
você mudaria?
Certa vez, você disse que não.
Não mudaria.
Eu acredito que, de fato,
não mudaria.

Não me tome por vaidosa,
mas eu sei muito bem que
te faço bem.
Sei tão bem,
como sei que é recíproco.

Não nos enlaçamos porque
temos medo de laços,
de contratos,
de acordos formais.

Você tem mais medo do que eu.
Não sei do quê.
Eu tentei entender,
mas desisti.

Esse medo pertence a ti.
E é você quem tem que
desvendar o que faz
a sua cabeça rodar
quando você coloca a sua mente 
pra pensar,
antes de cair nos sonhos
em que sei que figuro.

Você tem medo porque 
nunca soube o que era amar
e ser amado depois que
me conheceu,
depois que me teve por
alguns momentos em
seus abraços.

Agora que você já sabe,
isso o confundiu de tal forma,
que você não sabe o que fazer com isso.

Eu também não sei.
Por isso, eu parti.
Por isso, você partiu
na direção contrária.
Eu parti, mas permaneço
perto de você,
do mesmo jeito,
com os mesmos abraços
e os mesmos beijos.

Mas não, eu não gritarei o seu nome
aos quatro cantos.
Não te implorarei pra voltar.
Eu sei que você há de retornar
para o mais terno abraço que
você já conheceu.

No fundo, você sabe que ninguém
te amou ou irá te amar
como eu.
O amor que nos une é
uma espécie de magia.
Inexplicável, doce e intenso.
Incompreensível.

Estarei aqui,
no lugar que você sabe onde é.
Sei que você não
se demorará.

Não é preciso 
dizer que, mesmo com todo 
o meu orgulho, eu estou a te esperar.

 (Erica Ferro)

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Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

02 janeiro 2015

Resenha: O Começo do Adeus - Anne Tyler



O Começo do Adeus
Anne Tyler
Novo Conceito
208 páginas
☺☺☺
Anne Tyler nos leva a um romance sábio, assustador e profundamente tocante em que descreve um homem de meia-idade, desolado pela morte de sua esposa, que tem melhorado gradualmente pelas aparições frequentes da mulher — na casa deles, na estrada, no mercado. Com deficiência no braço e na perna direita, Aaron passou sua infância tentando se livrar de sua irmã, que queria mandar nele. Então, quando conhece Dorothy, uma jovem tímida e recatada, ele vê uma luz no fim do túnel. Eles se casam e têm uma vida relativamente modesta e feliz. Mas quando uma árvore cai em sua casa, Dorothy morre e Aaron começa a se sentir vazio. Apenas as aparições inesperadas de Dorothy o ajudam a sobreviver e encontrar certa paz. Aos poucos, durante seu trabalho na editora da família, ele descobre obras que presumem ser guias para iniciantes durante os caminhos da vida e que, talvez para esses iniciantes, há uma maneira de dizer adeus.

O primeiro contato que eu tive com a escrita de Anne Tyler foi através do livro O Começo do Adeus, publicado pela Editora Novo Conceito em 2012. O Começo do Adeus é um livro de ficção com enfoque no drama. O livro é narrado em primeira pessoa. É Aaron quem conta a sua estória, a de sua esposa e de seus amigos. Aaron é um homem próximo da meia-idade, sócio em uma editora independente que trabalha com a publicação de séries de livros que tratam de assuntos para iniciantes, com o intuito de auxiliá-los a lidarem com temas que não lhes são familiares. Uma espécie de séries de livros que proporciona ao leitor uma iniciação em temáticas que lhes despertam seu interesse, seja por necessidade ou pura curiosidade.
Aaron tem uma deficiência no braço e na perna direita, não que esse seja um detalhe que represente a totalidade da personalidade ou da pessoa de Aaron, mas ajuda a entender um pouco do seu comportamento e temperamento. Depois de ter lido a sinopse, estava curiosa para saber como Aaron lidava com a sua deficiência. Creio que os meus leitores antigos se lembrem de que eu também sou deficiente (caso não saibam, eis um link em que falo sobre isso), então, mesmo que o assunto deficiência seja familiar pra mim, gosto de ver como a deficiência vem sendo apresentada, não só em livros, como também em filmes.
Eu poderia discorrer sobre a minha concepção de que é preciso que haja urgentemente e largamente uma desconstrução dos tabus ao redor do tema deficiência, como, por exemplo, essa mania extrema que a maioria tem de enxergar o deficiente: ou como tipo de herói, porque ele consegue lidar bem com a deficiência e viver da forma mais plena possível, ou, como coitado, porque “ah, meu Deus, deve ser terrível ser deficiente!”, sussurra uma parcela dos ditos “normais”. Sobre a questão de “deficiente não é coitado nem herói”, quero pedir que assistam esse vídeo aqui. Stella Young diz muito bem sobre o sentimento de ser deficiente diante de uma sociedade que prega o encaixe nos padrões vigentes. Em síntese, o que ela diz – e eu concordo inteiramente – é que o problema não é, nem nunca foi, a deficiência, mas sim a falta de acessibilidade e de conhecimento por parte da sociedade sobre o que realmente é a deficiência. Em sua fala, ela coloca, muito sabiamente, que um deficiente apenas faz com que o seu corpo, pouco ou muito limitado, trabalhe na sua máxima potência, executando as tarefas diárias e desenvolvendo habilidades para dar sentido à sua existência, como qualquer outra pessoa no mundo.
Realmente, me empolgo quando o assunto é deficiência, pois sinto comichões ao ser tratada de uma maneira estranhamente especial ou com uma admiração acima do normal apenas pelo fato de ter uma deficiência. E é esse o sentimento de Aaron em relação à própria deficiência e ao modo como algumas pessoas o tratam. Ao contrário de mim, que sempre fui tratada com normalidade e apenas com os cuidados comuns por parte da minha família, os familiares de Aaron, sobretudo a sua mãe e irmã, lidavam com ele com cautela, com uma superproteção que o fazia se sentir uma espécie de vaso de porcelana, que poderia se quebrar a qualquer momento. Eu entendo, mesmo, que talvez a sua mãe e a sua irmã apenas o amassem demais e tivessem receio de que ele se machucasse, no entanto esse comportamento só sufocava Aaron e o fez se tornar um adulto arredio e desconfiado dos tratos que recebia ao longo da vida.
Quando conheceu Dorothy, uma médica excêntrica, que o tratou com a normalidade e naturalidade que ele sempre esperou de um desconhecido, ele se encantou por ela. Namoraram, casaram, mas não puderam viver muitos anos juntos porque, certo dia, uma árvore pesada e muito grande resolve cair no solário, onde Dorothy repousava, depois de um pequeno e bobo desentendimento com Aaron, e ela morre. Não estou contando algo de secreto, porque isso já figura na sinopse.
Depois disso, Aaron passa a se sentir sozinho e muito melancólico, perdido, sem Dorothy. Diante de tudo o que aconteceu, do choque, do trauma que foi perder a esposa inesperadamente, conscientemente ou inconscientemente, ele faz uma retrospectiva da própria vida, iniciando pela infância, passando pela fase da adolescência, até chegar a idade adulta. Podemos acompanhar o amadurecimento do personagem, que largou certos medos e se impôs ante a vida. Anne Tyler desenvolveu Aaron com muito tato e detalhes. É possível visualizá-lo com facilidade.
O relacionamento de Aaron e Dorothy deveria ter sido mais aprofundado, para que não causasse uma confusão e até mesmo buracos na trama. Sinceramente, fora o fato de Aaron se sentir bem ao lado de Dorothy por ela não o tratar como alguém fora de série ou como um coitado, não me foi possível enxergar o que mais os unia. As aparições dela foram muito mais agradáveis do que os relatos contados por Aaron. Em vida, Dorothy não havia sido alguém capaz de provocar amores ou grandes empatias. Pelo menos, não em mim. Já no estado pós-morte, ela se mostrou mais amável e sensível. Contudo, acreditar na veracidade da Dorothy pós-morte ou compreendê-la como uma criação de Aaron, uma reinvenção de Dorothy mais aprazível a ele, fica a critério do leitor.
Os personagens secundários são trabalhados de maneira razoável. Uma que eu destaco é Peggy, sempre solícita e doce não só com Aaron, mas com todos os seu redor. Cativou-me sem esforço e eu me perguntei. ao longo da leitura, por que Aaron não enxergava o quanto que ela era uma pessoa adorável. Quer dizer, entendia em parte. Em minha visão, o fechamento do livro e encaminhamento dos personagens se deu de forma apressada, mas crível. Classifiquei O Começo do Adeus com três estrelas, porque, em razão da ausência de um maior aprofundamento em algumas questões, só posso dizer que é um bom livro.
Anne Tyler não escreve de modo intricado. A sua escrita é fluida e a leitura se dá de maneira tranquila. No entanto, não foi uma experiência que se possa dizer maravilhosa. Espero ler outra obra de Anne que, ao fim, eu possa exclamar: “Bem, agora, sim, fui arrebatada por essa escritora!”.
O livro é indicado para quem gosta de estórias comuns, mas com personagens com um diferencial dentro do crível, que se apresentam sob a forma de assuntos dramáticos e reflexivos. 

Eis o Book Trailer de O Começo do Adeus:


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